“Por detrás de cada jogador neerlandês da seleção existe a mesma história: marinheiros cabo-verdianos que chegaram ao porto de Rotterdam décadas atrás e nunca mais voltaram — mas nunca esqueceram de onde vinham.”
O número que passou despercebido
Quando Cabo Verde entrou em campo pela primeira vez numa fase de grupos de um Campeonato do Mundo, o planeta celebrou o milagre de uma nação insular de 525 mil habitantes. O que poucos analisaram com atenção foi um detalhe na ficha técnica da convocatória: seis dos jogadores nascidos fora do arquipélago — Jamiro Monteiro, Laros Duarte, Deroy Duarte, Garry Rodrigues, Dailon Livramento e Sidny Lopes Cabral — nasceram todos na mesma cidade holandesa. Todos em Rotterdam.
Não de Portugal, não dos Estados Unidos — do mesmo porto neerlandês. Para entender este número é preciso recuar mais de setenta anos.
Quando os marinheiros escolheram Rotterdam
A migração cabo-verdiana para os Países Baixos começou nos anos 60 e 70 do século passado. Os primeiros emigrantes eram sobretudo jovens que se embarcavam como marinheiros em navios holandeses e, como tal, concentraram-se principalmente na cidade portuária de Rotterdam, especificamente na zona de Heemraadsplein.
Muitos fugiram do país por causa da pobreza ou da repressão colonial, ou para evitar o serviço militar. Nos anos seguintes foram-se estabelecendo em Rotterdam, trabalhando em terra. As famílias seguiram-nos na década de 70.
O mecanismo foi simples e ao mesmo tempo transformador: as ilhas não tinham o que oferecer, e o porto de Rotterdam precisava de braços. Uma geração embarcou — e depois ficou.
Uma comunidade que ajudou a construir a independência
O que nasceu desse encontro entre cabo-verdianos e a cidade portuária holandesa foi muito mais do que uma comunidade de trabalhadores. João Silva, conhecido como Djunga de Biluca, foi um dos pioneiros da comunidade cabo-verdiana em Rotterdam e fundador da Morabeza Records, a primeira editora discográfica cabo-verdiana do mundo. A editora desempenhou um papel importante na luta anticolonial contra os portugueses, através de letras de resistência, e foi fundamental na criação de um sentimento de identidade cabo-verdiana na diáspora.
Cabo Verde tornou-se independente em 1975, e a comunidade de Rotterdam desempenhou um pequeno mas genuíno papel para que isso acontecesse. Nenhuma outra comunidade migrante nos Países Baixos escreveu tantas canções sobre a cidade onde se instalou como os cabo-verdianos.
Jamiro Monteiro cresceu em Rotterdam com pais emigrantes cabo-verdianos e formou-se no Sparta Rotterdam. Garry Rodrigues cresceu no bairro de Delfshaven, em Rotterdam Oeste, e viveu no mesmo edifício que o seu primo Jerson Cabral — os pais dos dois são irmãos. Laros e Deroy Duarte são irmãos, ambos nascidos em Rotterdam e formados no Sparta Rotterdam. Sidny Lopes Cabral nasceu em Rotterdam, filho de pais cabo-verdianos, e tem dupla nacionalidade neerlandesa e cabo-verdiana. Dailon Livramento nasceu em Rotterdam e fez a formação no Excelsior, Sparta AV, Excelsior Maassluis e NAC Breda.
Dois irmãos. Dois primos. Uma cidade. Uma bandeira.
Rotterdam no coração de Cabo Verde
Atualmente, aproximadamente 90% dos cabo-verdianos nos Países Baixos residem na área metropolitana de Rotterdam, principalmente nos bairros de Delfshaven, onde constituem uma parte notável da população.
Os Países Baixos continuam a ser a principal fonte de remessas para algumas ilhas do arquipélago, apesar da redução dos fluxos migratórios nos últimos anos.
A comunidade cabo-verdiana em Rotterdam conta com mais de 60 organizações cívicas, que participam ativamente em iniciativas sociais e culturais. Os cabeleireiros, os clubes de música, os restaurantes — toda uma infraestrutura identitária construída ao longo de décadas por quem partiu e nunca cortou o laço com as ilhas.
O paradoxo que o Mundial tornou visível
A participação histórica da seleção no Mundial de 2026 oferece talvez a metáfora perfeita para compreender o paradoxo cabo-verdiano: o país celebra um feito extraordinário, mas parte significativa dos jogadores nasceu, cresceu ou foi formada fora do arquipélago. A equipa nacional simboliza simultaneamente sucesso e fragilidade.
Rotterdam não é uma exceção à história de Cabo Verde. Rotterdam é parte da história de Cabo Verde. Os seis jogadores que vestiram a camisola dos Tubarões Azuis neste Mundial não são simplesmente jogadores nascidos no estrangeiro — são filhos e netos da emigração de gerações que não tiveram escolha. E que hoje, por um estranho e belo destino, devolvem ao arquipélago aquilo que o arquipélago não pôde dar aos seus pais: uma razão para se orgulhar.
Recordamos que…
A seleção de Cabo Verde qualificou-se para os oitavos-de-final do Mundial 2026 de forma invicta, após empatar sucessivamente com a Espanha (0-0), o Uruguai (2-2) e a Arábia Saudita (0-0), convertendo-se oficialmente no país menos populoso de sempre a alcançar a fase a eliminar de um Campeonato do Mundo. Os nossos Tubarões Azuis defrontam a poderosa Argentina no próximo dia 3 de julho, marcando a atualidade desportiva deste mês de junho de 2026.
Caboverde24.info — Redação



























