O Senegal atravessa um período de grandes transformações políticas, económicas e sociais, marcado por uma agenda de ruptura com o passado recente e por desafios de estabilização interna.
Novo governo e ruptura política
– Em abril de 2024, Bassirou Diomaye Faye assumiu a presidência após um ciclo de forte polarização política, protestos e repressão à oposição. O seu governo tem como marca principal a tentativa de romper com o legado colonial francês, revendo contratos considerados ilegais com empresas estrangeiras, especialmente nos setores do petróleo, gás e minas.
– Ousmane Sonko, figura central da oposição, foi nomeado primeiro-ministro. O governo promoveu uma amnistia geral para manifestantes e opositores detidos desde 2021, numa tentativa de reconciliação nacional.
– O novo executivo simplificou protocolos, reforçou a transparência, lançou auditorias económicas e publicou relatórios sobre fraude e corrupção. Uma das medidas recentes foi a dissolução da Assembleia Nacional e a convocação de eleições legislativas antecipadas, após o partido do presidente conquistar uma ampla maioria parlamentar.
– O Senegal mantém-se como uma das democracias mais estáveis da África Ocidental, com alternância pacífica de poder e eleições reconhecidas internacionalmente.
Economia: desafios e perspectivas
– O país iniciou recentemente a produção e refinação do seu próprio petróleo, com destaque para o campo de Sangomar e o projeto de gás Grand Tortue Ahmeyim em parceria com a Mauritânia. A produção de crude deverá atingir cerca de 30 milhões de barris em 2025.
– Apesar do otimismo, o Senegal enfrenta dificuldades económicas. O défice orçamental foi revisto em alta para 7,8% do PIB em 2025, e o crescimento económico previsto caiu para 8%, abaixo das estimativas anteriores.
– Auditorias revelaram manipulação de dados orçamentais pela administração anterior, levando o Fundo Monetário Internacional a suspender desembolsos e a exigir maior transparência. O Senegal recorreu a mercados regionais para financiar-se, emitindo títulos de dívida a taxas mais elevadas.
– O governo aposta em reformas fiscais, aumento da arrecadação interna e redução da dependência de financiamento externo. O objetivo é garantir maior soberania económica, mesmo com custos de financiamento mais altos.
Sociedade, inovação e relações externas
– O Senegal lançou o seu primeiro satélite, GaindéSat-1A, em 2024, marcando um avanço na soberania tecnológica do país.
– O governo encerrou o Acordo de Parceria de Pesca com a União Europeia, medida bem recebida pelos pescadores locais, que enfrentavam forte concorrência de embarcações estrangeiras.
– O presidente Faye lançou o “Technological New Deal”, uma estratégia para impulsionar a soberania digital, inovação e conectividade universal, integrando o país na agenda Senegal 2050.
– Projetos como o PAVIE II visam criar mais de 90 mil empregos e promover o empreendedorismo entre jovens e mulheres, fortalecendo a segurança alimentar e a inclusão social.
Relações com Cabo Verde
– As relações entre Senegal e Cabo Verde continuam a ser reforçadas, com visitas de alto nível e compromissos para aprofundar laços históricos, estratégicos e de cooperação regional, sobretudo no âmbito da CEDEAO e da União Africana.
– Ambos os países estudam a criação de ligações marítimas para passageiros e mercadorias, o que pode facilitar o comércio e a integração regional. O projeto Praia-Dakar é uma das prioridades no plano de desenvolvimento de infraestruturas da CEDEAO.
Contexto político-regional
– O Senegal permanece atento ao seu papel de liderança na África Ocidental. O presidente Faye foi nomeado mediador da CEDEAO para dialogar com os governos militares do Mali, Níger e Burquina Faso, que criaram a Confederação dos Estados do Sahel e ameaçam sair da organização.
– O país aposta na diplomacia e no reforço da integração regional, mantendo-se como um dos Estados mais estáveis e influentes da região.
Resumo
O Senegal vive um momento de transição, com foco na soberania económica, revisão de contratos herdados, busca por transparência e reconciliação política interna. Apesar dos avanços e de uma agenda ambiciosa de reformas, enfrenta desafios económicos e institucionais significativos, mas mantém relações próximas e estratégicas com Cabo Verde, apostando no reforço da cooperação regional e no desenvolvimento conjunto.



















