Monte Txota: dez anos depois, as feridas ainda não cicatrizaram

“O massacre que abalou Cabo Verde a 25 de abril de 2016 completa uma década — e as famílias das vítimas ainda esperam mais respostas”

A manhã de 25 de abril de 2016 ficou para sempre marcada na história de Cabo Verde. Naquele dia, onze pessoas foram assassinadas no destacamento militar de Monte Txota, na ilha de Santiago — um crime sem precedentes que expôs as fragilidades das Forças Armadas e deixou famílias numa dor que, passada uma década, ainda não passou.

A manhã que mudou tudo

Entre as 9h30 e as 10h00, o soldado Manuel António Silva Ribeiro, de 23 anos, conhecido por “Entany”, abriu fogo sobre os seus colegas no destacamento militar de Monte Txota, localizado a 27 quilómetros a norte da Praia, na ilha de Santiago. O local não era qualquer posto militar: tratava-se do principal centro de comunicações do país, considerado de alta segurança.

Os disparos ocorreram enquanto os soldados realizavam trabalhos de reparação de antenas no cume do monte. Entany matou oito colegas a tiro e, em seguida, assassinou três técnicos civis — dois espanhóis e um cabo-verdiano — que tentaram impedi-lo de fugir com o veículo deles. Oito fuzis Kalashnikov e munições foram roubados e mais tarde encontrados no carro abandonado nas proximidades.

Os corpos só foram descobertos no dia seguinte, 26 de abril, ao meio-dia. Entany foi detido 27 de abril, dois dias após o crime, num bairro da Praia, após uma operação conjunta da Polícia Judiciária e das Forças Armadas.

As vítimas: nomes que o país deve recordar

Os oito militares assassinados eram jovens de várias ilhas do arquipélago: Nelson Neide de Brito (Brava), Romário Steffan Dias Lima (Santo Antão), Anacleto Lopes dos Santos (Santo Antão), Marilson Adérito Fernandes Delgado (Santiago), Mário Stanick Fernandes Pereira (Santiago), José Maria Correia Ribeiro (Santiago), Wilson Ramos Mendes (Santiago) e Adérito Silva Rocha (Santiago).

Os três civis eram Danielson Reis Monteiro (Cabo Verde), Ângelo Martínez Ruiz e David Sánchez Zamarreño (Espanha).

A motivação: vingança pessoal

O inquérito das Forças Armadas e o tribunal concluíram que Entany agiu por motivos estritamente pessoais. Após um desentendimento com o comandante do posto e de ter sido alvo de chacota por parte dos colegas, entrou nos quartos onde eles dormiam e disparou com intenção de matar. Não ficou provada qualquer ligação ao narcotráfico, como inicialmente se especulou.

A condenação e as consequências institucionais

Em 4 de novembro de 2016, o Tribunal Militar condenou Manuel António Silva Ribeiro à pena máxima de 35 anos de prisão, com expulsão das Forças Armadas e pagamento de uma indemnização de 11 milhões de escudos (cerca de 99 mil euros) às famílias das vítimas. Entany cumpre hoje a pena na Cadeia Central da Praia.

O impacto institucional foi profundo. O Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, major-general Alberto Fernandes, pediu a exoneração no dia 30 de abril, assumindo a responsabilidade política pelo ocorrido. Seguiram-se outros afastamentos na cúpula militar, incluindo os comandantes da Guarda Nacional e da Logística. Em agosto de 2016, foi atribuída uma pensão de sangue aos familiares dos militares mortos.

Dez anos depois: a dor que não passa

A efeméride deste 25 de abril de 2026 chega marcada por um novo momento de memória coletiva. A 25 de março de 2026, foi lançado na Praia o livro “Monte Txota — Um Massacre em Cabo Verde”, dos jornalistas Cristina Fernandes Ferreira e Ricardino Pedro, editado pela Rosa de Porcelana. A obra, resultado de dois anos de pesquisa e dezenas de entrevistas, procura resgatar a dimensão humana da tragédia — quem eram aqueles jovens, que sonhos tinham, o que os levou às Forças Armadas.

As famílias das vítimas, segundo os autores, continuam a sentir-se magoadas e abandonadas. Muitas consideram que não lhes foram dadas respostas suficientes sobre como os seus entes queridos morreram. O país avançou; elas ficaram sozinhas com a sua dor.

O jornalista Benvindo Neves, que apresentou a obra, sublinhou que o livro traz de volta ao debate público uma tragédia que, com o passar dos anos, “caiu no esquecimento” — e que ainda há muita coisa por esclarecer.

Uma ferida aberta na história de Cabo Verde

O massacre de Monte Txota permanece como o episódio de violência armada mais grave da história recente das Forças Armadas de Cabo Verde. Uma tragédia que expôs fragilidades institucionais, destruiu famílias e deixou no país uma cicatriz coletiva que, uma década depois, ainda não fechou.

Recordamos que, na manhã de 25 de abril de 2016, o soldado Manuel António Silva Ribeiro “Entany” assassinou onze pessoas — oito militares e três civis — no destacamento militar de Monte Txota, na ilha de Santiago. Foi condenado à pena máxima de 35 anos de prisão, que cumpre atualmente na Cadeia Central da Praia. Em março de 2026, foi lançado o livro que revisita a dimensão humana desta tragédia, dez anos depois.

Cape Verde 24.info 

Imagem Canva

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