Quem era Vasco Martins, o compositor cabo-verdiano que faleceu em São Vicente aos 69 anos? – VÍDEO

“O ícone da música erudita cabo-verdiana faleceu na madrugada desta quarta-feira, 27 de novembro, em São Vicente, deixando um legado ímpar na cultura do arquipélago”

Vasco Jorge Coelho de Oliveira Martins, o primeiro e único compositor de música sinfónica de Cabo Verde, faleceu na madrugada desta quarta-feira em São Vicente, aos 69 anos. O músico esteve hospitalizado nos últimos dias com problemas de saúde complicados, segundo confirmou o seu irmão, Rodrigo Martins, à imprensa nacional.

Da infância em Portugal à vida em São Vicente

Nascido em Queluz, Portugal, em 1956, filho de pai cabo-verdiano e mãe portuguesa, Vasco Martins mudou-se aos nove anos para São Vicente. Autodidata nos primeiros anos, começou pelo piano, passou depois para o violão e a guitarra elétrica. Aos 17 anos, interrompeu o liceu e dedicou-se sete anos ao estudo autodidata da música.

A sua virtuosidade impressionou o Presidente Aristides Pereira, que lhe concedeu uma bolsa de estudos do Governo. Entre 1979 e 1981, estudou com o compositor português Fernando Lopes Graça. Seguiu depois para França, onde se aperfeiçoou com o maestro Henri-Claude Fantapié no Conservatoire Municipal de Noisy-le-Sec.

Em 1985, aos 29 anos, regressou definitivamente a Cabo Verde, onde criaria toda a sua obra monumental.

Uma obra única no panorama cabo-verdiano

Vasco Martins distinguiu-se como figura absolutamente singular. Compositor que negava rotulações, transitava entre a música erudita, a eletrónica, o jazz e os elementos da música tradicional cabo-verdiana.

A sua produção inclui nove sinfonias criadas entre 1997 e 2011: “Equinócio de Março”, “Erupção” (inspirada na erupção do Fogo), “Arquipélago Magnético”, “Buda Dharma”, “Oriente”, “Monte Verde”, “Alba”, “A Procura da Luz” e “Oceano Atlântico”.

Entre outras obras destacam-se “Danças de Câncer” (1998), uma suíte para orquestra sinfónica inspirada nos géneros da música popular cabo-verdiana, criada segundo o mesmo método que Villa-Lobos utilizou com a música brasileira.

Pioneiro e investigador

Vasco Martins cofundou o Festival da Baía das Gatas em 1984, o primeiro festival de música de Cabo Verde. Propôs que 3 de dezembro, data de nascimento de B.Leza, fosse adotado como o Dia da Morna.

Como musicólogo, publicou em 1989 o livro “Música Tradicional Cabo-Verdiana I – A Morna”, obra de referência sobre o género musical mais emblemático do arquipélago.

Reconhecimento internacional

Obras de Vasco Martins foram interpretadas por orquestras de prestígio como a North Czech Philharmonic Orchestra, Les Solistes de Paris, Sinfonia Toronto e Orquestra Metropolitana de Lisboa. A sua Sinfonia nº 9 “Oceano Atlântico” foi apresentada no Teatro São Luiz em Lisboa em novembro de 2024.

Recebeu encomendas da Universidade Paris VIII, do Teatro Gerard Philipe (com patrocínio do Estado Francês) e da Comissão dos Descobrimentos Portugueses.

Uma vida dedicada à arte

Vasco Martins não foi apenas músico. Foi também escritor, com livros de poesia e romances, e um dos raros artistas cabo-verdianos que vivia exclusivamente da música.

Nos últimos anos, vivia retirado em Calhau, num vale de São Vicente. “A sinfonia é um ato de fé, o que o músico põe lá dentro é o conteúdo da sua alma”, declarou em 2008 à agência Lusa.

Homem de hábitos contemplativos, dedicava as manhãs à composição, as tardes aos passeios e as noites à meditação e leitura. O seu lado espiritual, marcado pela atração ao budismo e hinduísmo, permeava toda a sua obra.

Um legado para Cabo Verde

Apesar de pouco ouvido pelo público cabo-verdiano médio, Vasco Martins foi dos artistas com mais referências na imprensa local desde finais da década de 1970. Enfrentou resistências, batendo-se contra o conservadorismo. Em 1980 escreveu num manifesto: “A música não é só o todo cabo-verdiano, a eterna cadência perfeita, o canto de amor, mas sim algo mais livre, mais trabalhado, mais universal”.

Com a sua morte, Cabo Verde perde o seu único compositor sinfónico, um pioneiro que abriu caminhos inexplorados na música do arquipélago e que deixa um legado ímpar para as futuras gerações.

Cape Verde24

Fontes: 
Wikipedia – Vasco Martin
Teatro São Luiz (Lisboa) – Programação “Cabo Verde” (novembro 2024)
Esquina do Tempo (Blog Brito Semedo) – “Vasco Martins, Músico e Compositor Clássico”
Noviactual – “Compositores da Morna: género que conquistou o mundo”
Vídeos
: Canal YouTube Vasco Martins Music
Imagens: Rede social

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