Surto de Shigella volta a atingir turistas em Cabo Verde: 137 novos casos ligados ao Sal e Boa Vista

“Reino Unido reporta novo surto com 94% dos casos relacionados a viagens para Santa Maria – Três anos depois do primeiro alerta internacional, problema persiste nos hotéis all-inclusive”

Cabo Verde enfrenta um novo surto de infeções por Shigella sonnei entre turistas, três anos depois do primeiro alerta internacional. Desde 1 de outubro de 2025, o Reino Unido registou 137 casos confirmados da bactéria que causa diarreia grave, febre e cólicas abdominais. Destes, 109 casos (94%) estão diretamente ligados a viagens ao arquipélago cabo-verdiano, especificamente às regiões de Santa Maria (Sal) e Boa Vista.

Os dados, divulgados pela UK Health Security Agency no início de dezembro, representam uma repetição preocupante do padrão de 2022-2023, quando 258 casos foram documentados em 12 países. A persistência do problema levanta questões sobre a eficácia das medidas implementadas e sobre a segurança alimentar nos estabelecimentos turísticos.

Um problema recorrente

Entre setembro de 2022 e fevereiro de 2023, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) documentou 258 casos de shigelose em turistas de 10 países da União Europeia, Reino Unido e Estados Unidos. O epicentro era sempre o mesmo: hotéis all-inclusive na região de Santa Maria, ilha do Sal.

A análise genética das amostras revelou um “cluster geneticamente compacto”, ou seja, todas as infeções partilham uma origem comum, sugerindo uma fonte única de contaminação. No novo surto de 2025, o padrão repete-se: 72% dos casos são mulheres, com idade mediana de 54 anos, distribuídas por Inglaterra (113 casos), Escócia (12) e País de Gales (12).

Ações judiciais em massa

Segundo dados do gabinete de advogados britânico Irwin Mitchell, especializado em casos de intoxicação alimentar em viagens, 926 turistas britânicos apresentaram ações judiciais contra operadores turísticos nos últimos três anos: 806 em 2022, 65 em 2023 e 55 em 2024. As queixas envolvem não só Shigella, mas também Salmonella, E. coli e Cryptosporidium.

Entre os casos mais notórios, destacam-se quase 100 pessoas que adoeceram após estadias no Hotel Riu Cabo Verde no verão de 2022, 170 hóspedes que tomaram medidas legais após ficarem doentes no Riu Funana no mesmo ano, e 300 pessoas que reportaram doenças noutros hotéis cabo-verdianos.

Reviews no TripAdvisor corroboram o padrão. Hóspedes relatam episódios graves de diarreia, piscinas temporariamente fechadas por contaminação fecal, presença de moscas em buffets e condições de higiene questionáveis. Um turista escreveu: “Existe um grupo no Facebook chamado Cape Verde (S&D) com mais de 1.000 membros! Não foi apenas diarreia ligeira, foi o pior que já tivemos!”

O que é a shigella?

A Shigella Sonnei é uma bactéria que se transmite através do contacto com fezes contaminadas – diretamente de pessoa para pessoa, ou indiretamente através de alimentos, água ou superfícies. A dose necessária para causar infeção é extremamente pequena, tornando a transmissão particularmente fácil.

Nos hotéis all-inclusive, vários fatores aumentam o risco: buffets com alimentos expostos, manipuladores de alimentos potencialmente infetados, piscinas partilhadas e condições de preparação de alimentos que nem sempre cumprem os padrões mais rigorosos. O ECDC identificou a transmissão por alimentos como a via mais provável, incluindo através de manipuladores de alimentos infetados.

Os sintomas surgem 1-2 dias após a infeção e incluem diarreia intensa (por vezes com sangue), febre alta, cólicas abdominais severas e náuseas. A maioria das pessoas recupera em 5-7 dias, mas os casos mais graves podem exigir hospitalização e evoluir para complicações como sepsis. A estirpe identificada apresenta resistência a alguns antibióticos, complicando o tratamento.

A versão das autoridades cabo-verdianas

A resposta oficial tem sido consistentemente defensiva. Em fevereiro de 2023, a Presidente do Instituto Nacional de Saúde Pública, Maria da Luz Lima, afirmou que investigações “não revelaram aumento de casos de diarreias comparando com os anos anteriores” e que “não houve surto de shigelose na ilha do Sal”.

Em outubro de 2024, um comunicado conjunto da Inspeção-Geral das Atividades Económicas, da Entidade Reguladora Independente da Saúde, do INSP e do Instituto do Turismo voltou a negar a existência de um surto: “As investigações não revelaram qualquer evidência de um surto de Shigella nos hotéis de Santa Maria durante o período de setembro de 2022 a março de 2023.”

O documento sublinha que mais de 2.000 cartões de sanidade foram atualizados pela Delegacia de Saúde do Sal e classifica Cabo Verde como “um destino turístico de referência, onde a segurança alimentar e a proteção da saúde dos visitantes são prioridades absolutas”.

A contradição entre dados nacionais e internacionais

A discrepância entre a posição oficial cabo-verdiana e os dados epidemiológicos internacionais é evidente. As autoridades nacionais não encontram anomalias nas estatísticas locais, mas os sistemas de vigilância europeus e americanos documentam centenas de casos geneticamente idênticos, todos com ligação à mesma região de Cabo Verde.

Três explicações podem justificar esta contradição:

1. Subnotificação local: Turistas que adoecem frequentemente não procuram atendimento médico em Cabo Verde, aguardando até regressar aos seus países. Os casos são então diagnosticados e reportados nos sistemas de saúde estrangeiros, não entrando nas estatísticas nacionais.

2. Definições diferentes: O que as autoridades internacionais classificam como “surto” pode não corresponder aos critérios epidemiológicos utilizados localmente.

3. Pressão económica: O turismo representa o motor da economia cabo-verdiana, com mais de um milhão de turistas em 2023. O Reino Unido, principal mercado afetado, representa cerca de um terço dos visitantes. Admitir oficialmente um surto tem consequências económicas diretas.

O impacto na reputação do destino

Em 2023, a revista Forbes incluiu o Sal (3ª posição) e Boa Vista (9ª posição) no ranking dos 25 destinos de férias onde os turistas corriam mais risco de adoecer. Apenas Punta Cana (República Dominicana) e Sharm El-Sheikh (Egito) ficaram à frente – uma comparação devastadora para qualquer país que aspira a ser uma referência turística de qualidade.

Para contextualizar: em 2022, Cabo Verde recebeu aproximadamente 835.000 turistas. Os 258 casos documentados representam cerca de 0,03% dos visitantes. Estatisticamente, a probabilidade de adoecer permanece baixa. No entanto, para a saúde pública, o que importa é o padrão: casos geneticamente relacionados, concentrados geograficamente, indicam uma falha sistémica que precisa de ser corrigida.

O que precisa de ser feito?

Especialistas apontam medidas urgentes: transparência e colaboração com organizações internacionais, inspeções surpresa rigorosas aos hotéis, rastreabilidade da cadeia alimentar para identificar fornecedores comuns, formação certificada obrigatória para manipuladores de alimentos, vigilância epidemiológica reforçada, protocolos claros de resposta a surtos, e comunicação preventiva aos turistas.

Cabo Verde demonstrou, em diversas ocasiões, ter capacidade técnica para responder a crises – desde a pandemia de COVID-19 até às recentes cheias. O país tem instituições credíveis, profissionais qualificados e sistemas de vigilância. Não faltam recursos nem conhecimento técnico para resolver o problema da Shigella.

O que falta é transparência e vontade de reconhecer que existe um problema real. A credibilidade de um destino turístico não se constrói negando problemas, mas demonstrando capacidade de os resolver rapidamente. Cada novo surto que é ignorado ou minimizado corrói a confiança dos turistas e operadores internacionais.

Uma questão de interesse nacional

O setor turístico representa aproximadamente 25% do PIB de Cabo Verde e emprega direta e indiretamente dezenas de milhares de cabo-verdianos. A reputação do destino é uma questão de interesse nacional que transcende o setor da saúde.

Se os surtos continuarem a repetir-se, o impacto será inevitável: menos reservas, menos voos, menos receitas, menos empregos. Operadores turísticos já começam a reconsiderar Cabo Verde nas suas ofertas, e os turistas têm cada vez mais alternativas.

A pergunta que fica: quantos surtos mais serão necessários para que se admita que algo precisa de mudar urgentemente em Santa Maria? Cabo Verde merece melhor. Os turistas merecem melhor. E os milhares de cabo-verdianos cujo sustento depende do turismo merecem que este problema seja tratado com a seriedade e urgência que exige.

Cape Verde24

Fontes

  • Travel Health Pro, 5 dezembro 
  • UK Health Security Agency (UKHSA) – HPR volume 19 issue 11, 4 dezembro 2025
  • European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC) – “Outbreak of Shigella sonnei among travellers returning from Cabo Verde”, 17 fevereiro 2023
  • TravelHealthPro/NaTHNaC – “Shigella cases reported in travellers returning from Cape Verde”, 5 dezembro 2025

 

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