“Para os nossos filhos e amigos continuamos a ser marido e mulher. Vivemos na mesma casa, fazemos refeições juntos e ninguém imagina que, quando chega a noite, cada um fecha a porta do seu quarto.”
A história desta semana chega-nos da Praia.
Escolhemo-la porque fala de uma solidão difícil de perceber do lado de fora: a de duas pessoas que continuam juntas perante a família e os amigos, mas que, dentro de casa, deixaram há muito de viver como casal.
Chamaremos Teresa à nossa leitora. Tem 58 anos, está casada há mais de três décadas e guarda uma realidade que nem os filhos conhecem.
Durante anos conseguiu viver assim.
Até que alguma coisa mudou.
“Não houve uma grande discussão”
“Não sei dizer exatamente quando começou.
Não houve uma traição que eu tenha descoberto. Não houve uma discussão enorme. Nenhum de nós disse que queria separar-se.
Fomos simplesmente deixando de ser um casal.
Primeiro deixámos de conversar sobre certas coisas. Depois deixámos de sair juntos. O carinho foi diminuindo e a intimidade desapareceu quase sem percebermos.
Um dia comecei a dormir noutro quarto.
Na altura havia uma razão.
Depois tornou-se hábito.
Já passaram quase sete anos.”
“Os nossos filhos não sabem”
“Temos filhos adultos.
Quando vêm a casa, encontram-nos juntos.
Sentamo-nos à mesma mesa, fazemos aniversários em família e, quando somos convidados para alguma coisa, muitas vezes vamos os dois.
Não vivemos em guerra.
Talvez seja precisamente isso que tornou tudo mais difícil.
Se discutíssemos todos os dias, provavelmente já teríamos tomado uma decisão.
Mas não discutimos.
Existe respeito. Existe uma história de muitos anos. Existe família.
Só já não sei se ainda existe um casamento.”
“À noite, cada um fecha a sua porta”
“Quando chega a noite, cada um vai para o seu quarto.
No início ainda falávamos sobre isso.
Depois deixámos de falar.
É como se tivéssemos feito um acordo sem nunca nos sentarmos para o discutir.
Às vezes pergunto-me se ele também se sente sozinho.
Nunca lhe perguntei.
E ele também nunca me perguntou se eu estou feliz.”
“Pensei que a minha vida seria assim até ao fim”
“Tenho 58 anos.
Durante muito tempo convenci-me de que certas coisas já não eram importantes.
Tenho casa, filhos e uma vida organizada.
Pensava: para quê mexer em tudo agora?
Como explicar aos nossos filhos uma separação se, aos olhos deles, não aconteceu nada?
E talvez seja essa a parte mais difícil de explicar.
Nada aconteceu. Talvez esse seja precisamente o problema.”
Teresa acreditava que continuaria assim.
Até começar a esperar por uma mensagem.
“Comecei a olhar para o telefone de outra maneira”
“Há alguns meses comecei a conversar com uma pessoa.
Não quero dar detalhes porque não quero que ninguém seja identificado.
No início eram conversas normais.
Depois comecei a perceber que esperava pelas mensagens.
Gostava que alguém me perguntasse como tinha sido o meu dia e realmente quisesse ouvir a resposta.
Comecei a sorrir quando via o nome daquela pessoa no telefone.
Foi aí que fiquei assustada.
Não porque tivesse acontecido alguma coisa entre nós.
Mas porque percebi que ainda consigo sentir.”
“Que casamento estou exatamente a trair?”
“Não aconteceu nada entre nós.
Mas comecei a sentir-me culpada.
Às vezes apago uma mensagem porque tenho medo de que o meu marido veja.
E penso: se sinto necessidade de esconder, talvez já esteja a fazer alguma coisa errada.
Depois faço a mim própria uma pergunta que me deixa ainda mais confusa:
Que casamento estou exatamente a trair?
Continuamos legalmente casados.
Vivemos na mesma casa.
Somos uma família.
Mas há quase sete anos que dormimos separados.
Não me lembro da última vez que o meu marido me abraçou simplesmente porque quis.
E também não me lembro da última vez que tentei aproximar-me dele.”
“Não quero começar uma vida às escondidas”
“Não quero ter uma relação secreta.
Não quero mentir ao meu marido nem aos meus filhos.
E também não quero acabar um casamento de mais de trinta anos apenas porque apareceu alguém que me fez sentir novamente interessante.
Talvez essa pessoa nem venha a fazer parte da minha vida.
Mas apareceu numa altura em que eu já me tinha habituado a não esperar nada.
E fez-me perceber uma coisa:
eu estava muito mais sozinha do que queria admitir.
Agora olho para o meu marido e pergunto-me se ainda temos alguma coisa para recuperar.
Ou se somos apenas duas pessoas que se habituaram tanto a viver juntas que deixaram de perguntar por que continuam juntas.”
Teresa termina a carta com a pergunta que decidiu partilhar connosco:
“Estou a trair o meu marido por começar a sentir alguma coisa por outra pessoa ou o nosso casamento terminou há muito tempo e fomos apenas incapazes de o admitir?”
Resposta da Direção
Cara Teresa,
Talvez o outro homem não seja, neste momento, a questão principal.
Ele parece ter feito apenas uma coisa: tornou visível uma solidão que já existia.
Isso não significa que o seu casamento tenha terminado.
Também não significa que deva iniciar outra relação.
Significa que chegou provavelmente o momento de ter com o seu marido uma conversa que ambos adiaram durante anos.
Há uma frase na sua carta que nos parece particularmente importante: nenhum dos dois pergunta ao outro se está feliz.
Começaria por aí.
Não pelos quartos separados. Não pelo outro homem. Mas por vocês.
Ainda querem ser um casal?
Talvez descubram que existe alguma coisa para reconstruir.
Talvez percebam que ambos se acomodaram a uma situação que já não faz nenhum dos dois feliz.
Ou talvez cheguem à conclusão de que o casamento terminou emocionalmente há muito tempo.
Mas essa resposta deveria nascer primeiro de uma conversa entre vocês, e não da chegada de uma terceira pessoa.
O facto de ter voltado a sentir atenção, entusiasmo ou vontade de conversar também lhe revelou algo importante sobre si.
Aos 58 anos, não é tarde para tentar reconstruir um casamento.
E também não é tarde para reconhecer, se essa for a conclusão dos dois, que chegou o momento de seguir caminhos diferentes.
O que parece mais difícil é continuar durante outros sete anos sem fazer a pergunta que ambos têm evitado.
E você, o que faria?
Um casamento continua a ser um casamento quando permanecem o respeito, a família e a vida em comum, mas desaparecem durante anos a intimidade e a proximidade?
E se aparecesse alguém que lhe fizesse perceber o quanto se sente sozinho, tentaria recuperar primeiro a relação que tem ou entenderia isso como sinal de que chegou o momento de mudar?
Entre Nós existe para dar espaço às histórias que muitas vezes permanecem fechadas dentro de casa.
Se vive ou viveu um dilema familiar, amoroso, financeiro ou pessoal, escreva para a redação do Caboverde24.info e conte-nos a sua história.
A sua identidade será preservada. Se a história for selecionada para uma próxima edição de Entre Nós, nomes e outros elementos que possam identificar as pessoas envolvidas serão omitidos ou alterados.
A sua história pode ser a próxima. E aquilo que hoje vive em silêncio pode ser uma experiência partilhada por muitas outras pessoas.
Cape Verde 24.info
Fonte: Testemunho de leitora — Entre Nós / Caboverde24.info



























