“A jovem produtora Cristina da Luz e a realizadora Zamzam Elmoge exploram o luto, o isolamento e a fragilidade da mente humana numa curta-metragem inovadora filmada em Santiago“
Recordamos que o cinema em Cabo Verde, embora rico em narrativas sociais e documentais, tem historicamente explorado pouco os géneros de ficção especulativa ou terror. A tradição oral das ilhas está repleta de lendas, mistérios e figuras do folclore que, até agora, raramente transitaram para o grande ecrã com uma roupagem cinematográfica moderna. Este projeto marca, portanto, um ponto de viragem importante, demonstrando como a nova geração de criadores, formada internacionalmente, está a regressar para reinterpretar a cultura local através de lentes globais e inovadoras, desafiando a escassez habitual de apoios financeiros no setor audiovisual.
Um novo olhar sobre o medo e a identidade
O cinema cabo-verdiano está prestes a receber uma obra que promete agitar as águas calmas da produção nacional. Trata-se de “Maresia”, uma curta-metragem de terror psicológico que está atualmente a ser rodada na ilha de Santiago. O projeto, liderado pela jovem produtora cabo-verdiana Cristina da Luz, de apenas 23 anos, representa uma lufada de ar fresco — ou melhor, uma maresia intensa — no panorama audiovisual do arquipélago, ao apostar num género ainda considerado “tabu” ou, no mínimo, inexplorado nas nossas ilhas: o terror.
Recém-formada em cinema pelo prestigiado Emerson College, nos Estados Unidos, Cristina da Luz decidiu que o seu cartão de visita como produtora teria de ser carimbado na sua terra natal. “Maresia” não é apenas um filme de sustos; é uma exploração profunda da psique humana, utilizando a paisagem cabo-verdiana não apenas como cenário, mas como personagem ativa.
O mar como espelho da alma e do terror
A premissa do filme afasta-se dos clichês do terror ocidental, repletos de monstros literais ou violência gratuita. Em vez disso, a narrativa mergulha no “terror psicológico”. A história acompanha uma protagonista feminina que, após um naufrágio, se vê presa numa ilha deserta. Aqui, o mar — elemento omnipresente na vida de qualquer cabo-verdiano — assume um papel duplo e inquietante.
Para nós, cabo-verdianos, o Atlântico é fonte de sustento e estrada para a diáspora, mas também é uma barreira de isolamento e saudade. Cristina da Luz captura essa dualidade de forma magistral: “É a grande presença na nossa vida e decidi fazer um filme em que o mar também seja uma personagem”, explica a produtora. O terror em “Maresia” reside na “decadência mental” rápida e brutal que o isolamento provoca. É o medo do real, da fragilidade da mente quando confrontada com a solidão absoluta e o trauma.
Produção, elenco e a ligação com o teatro local
As filmagens, que decorrem em locais emblemáticos como a Praia de São Francisco, Moia Moia e Portinho, contam com uma equipa técnica mista, unindo talentos locais e colegas de formação de Cristina vindos dos EUA, como a realizadora do filme, Zamzam Elmoge.
Elmoge, também com 23 anos, encontrou no guião uma universalidade que transcende fronteiras culturais. O filme toca em feridas abertas como o luto, a perda e o trauma familiar. “É íntimo, mais ligado ao quotidiano do que se possa imaginar”, refere a realizadora, destacando a humanidade da dor retratada.
Para dar corpo a estas emoções complexas, a produção recorreu ao talento comprovado do teatro nacional. Sheila Martins, atriz de 31 anos da conhecida companhia “Fladu Fla”, assume o papel de Fátima, uma mãe em sofrimento. A transição dos palcos para a linguagem contida e detalhista do cinema é um desafio que Sheila abraçou, procurando representar “aquelas mulheres que sofrem bastante”, uma figura infelizmente comum na resiliência feminina cabo-verdiana. A participação de membros do “Fladu Fla” reforça a importância da sinergia entre as diferentes artes performativas no país.
O desafio do financiamento e o futuro
Como é habitual em projetos artísticos em Cabo Verde, o caminho para a concretização de “Maresia” não foi isento de obstáculos. Cristina da Luz aponta o dedo à ferida crónica do setor: a falta de apoio financeiro e de investimento estruturado. Convencer patrocinadores a apostar num filme de terror num mercado habituado a outros formatos exigiu persistência.
”Cabo Verde tem atores para atuar em todos os géneros artísticos”, garante Sheila Martins. O que falta, muitas vezes, é apenas a oportunidade e a “ignição” financeira. Cristina espera que a sua iniciativa sirva exatamente para isso: abrir portas. Ao trazer uma produção organizada, com conhecimentos técnicos adquiridos numa das melhores escolas de cinema do mundo, ela pretende mostrar que é possível fazer cinema de género de alta qualidade no arquipélago.
Estreia e expectativas
Com cerca de 20 minutos de duração, “Maresia” tem estreia prevista em Cabo Verde para dezembro de 2026. Antes disso, porém, o filme deverá percorrer o circuito internacional de festivais, levando as paisagens e as histórias de Cabo Verde a audiências mundiais através de uma linguagem universal: a emoção e o suspense.
Cristina da Luz acredita que o terror é um “bom mecanismo para convidar audiências mundiais”, permitindo explorar histórias locais que muitas vezes não encontram espaço nos meios tradicionais. Se o mar une e divide, “Maresia” promete unir o público no suspense e na reflexão sobre os limites da mente humana.
Fica o convite para que, em dezembro, os cabo-verdianos encham as salas (ou os espaços de exibição) para apoiar esta nova vaga de criadores que, com coragem, estão a expandir as fronteiras da nossa cultura.
Caboverde24.info
Fonte: Saúde Mais TV







































