“O autor que confessa ‘roubar’ a essência das ilhas para a sua ficção”
Viajar é também passar pelos livros que nos calharam em sorte. No caso do escritor Francisco José Viegas, a sua obra é habitada por um personagem cabo-verdiano, o inspetor José Corsário das Neves, que nasceu no romance Longe de Manaus e tem acompanhado os seus livros seguintes. Esta ligação literária é uma forma de homenagem profunda à cultura do arquipélago, que o autor explora com admiração e uma honestidade intelectual singular.
A presença das ilhas na ficção de Viegas
O inspetor José Corsário, personagem central na narrativa de Viegas, carrega no nome referências a grandes figuras de Cabo Verde, como o poeta Corsino Fortes. Além disso, o autor utiliza nomes que evocam Arménio Vieira e Maria da Graça, esta última uma personagem de Germano Almeida em O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo.
Viegas admite, de forma provocadora, que comete “plágios cabo-verdianos”, integrando na sua escrita a música de Bana, as mornas de Eugénio Tavares e as paisagens de Santo Antão. Para o escritor, esta é uma forma de praticar uma espécie de “morabeza literária”, um gesto de amabilidade num mundo em que já não somos donos da nossa alma.
Referências culturais e personalidades
Da música das ilhas ao topo das tabelas mundiais
O texto de Francisco José Viegas não se limita à literatura, estendendo-se à influência global da música cabo-verdiana na diáspora. Ele recorda a história de Feliciano “Flash” Tavares, cujos filhos formaram os Chubby and the Turnpikes, mais tarde conhecidos como The Tavares. Em julho de 1975, o single It Only Takes a Minute chegou rapidamente ao primeiro lugar do top, consolidando o sucesso da família que viria a brilhar na banda sonora de Saturday Night Fever.
Quem é Francisco José Viegas?
Francisco José Viegas é um escritor e jornalista português, amplamente reconhecido pela sua obra no género policial, onde criou o inspetor Jaime Ramos. Foi também Secretário de Estado da Cultura em Portugal. A sua escrita reflete uma forte ligação ao mundo lusófono, utilizando a literatura como um espaço de encontro entre diferentes culturas e geografias, com especial carinho por Cabo Verde, cujas palavras, como “morabeza”, ele celebra como parte do património comum da língua.
Nota Editorial: Este artigo analisa as reflexões de Viegas publicadas na revista Sábado sobre a permeabilidade cultural e o intercâmbio afetivo entre Portugal e Cabo Verde.
Caboverde24.info
Fonte: Francisco José Viegas – O Outro Hemisfério (Revista Sábado)







































