Mieloma múltiplo: o que é e por que Cabo Verde tem mais casos do que a média mundial

“O Hospital Baptista de Sousa realizou o primeiro simpósio nacional sobre a doença, alertando para o aumento da incidência e a urgência do diagnóstico precoce”

Um cancro silencioso que está a crescer

Cabo Verde tem um problema de saúde pública que merece atenção. A incidência do mieloma múltiplo no arquipélago está acima da média mundial: entre 2024 e 2025, foram registados 27 novos casos da doença, colocando a taxa nacional em 1,9 casos por cada 100 mil habitantes, enquanto a média mundial é de 1,8. O dado foi revelado esta semana no Mindelo, durante o Primeiro Simpósio Nacional sobre Mieloma Múltiplo, organizado pelo Hospital Baptista de Sousa.

O que é o mieloma múltiplo

O mieloma múltiplo é uma doença maligna que afeta um tipo de células presentes na medula óssea — os plasmócitos — responsáveis pela produção dos anticorpos que defendem o organismo. Quando essas células sofrem uma transformação maligna, passam a multiplicar-se de forma descontrolada, produzindo proteínas anómalas que podem danificar os rins, os ossos e outros órgãos.
A doença pode causar dores ósseas e aumentar a predisposição a infeções, mas inicialmente não costuma apresentar sintomas. Em alguns casos, pode ser descoberta em exames de rotina antes de apresentar sinais visíveis. Os sintomas mais comuns incluem dor óssea, anemia, infeções recorrentes e alterações na função renal. Podem também estar presentes sintomas neurológicos.

Terceiro cancro do sangue mais frequente em Cabo Verde

Atualmente, o mieloma múltiplo é o terceiro cancro hematológico com maior incidência em Cabo Verde, ficando apenas atrás dos linfomas e das leucemias. Segundo o presidente do conselho de administração do Hospital Baptista de Sousa, Victor da Costa, este crescimento deve-se não só ao envelhecimento da população, mas também a uma maior capacidade de identificação de casos ao longo do tempo.

Por que Cabo Verde tem mais casos?

A resposta está em parte na genética. A incidência do mieloma múltiplo é cerca de duas vezes superior na população de origem africana, sendo menos frequente nos asiáticos. Cabo Verde, com uma população maioritariamente afrodescendente, enquadra-se neste perfil de risco elevado.
Os principais fatores de risco para a doença incluem idade, sexo, raça e histórico familiar. Mais de 60% dos casos são diagnosticados em adultos com mais de 65 anos, e a incidência é maior nos homens do que nas mulheres.
A estes fatores acresce o contexto cabo-verdiano: o envelhecimento progressivo da população e a melhoria gradual da capacidade de diagnóstico têm tornado mais visíveis casos que antes passavam despercebidos.

O problema está no diagnóstico tardio

O diretor clínico do Hospital Baptista de Sousa, Paulo Almeida, sublinha que o combate ao aumento da incidência passa sobretudo por uma maior atenção ao diagnóstico atempado: “É importante fazer o diagnóstico, mas é ainda mais importante fazê-lo o mais cedo possível, porque quando a doença é detectada numa fase precoce, o tratamento e os resultados são muito melhores.”
Para a maioria dos pacientes, o mieloma múltiplo é uma doença progressiva e sem cura, mas as abordagens terapêuticas mais recentes melhoraram significativamente a qualidade de vida e a sobrevida, que pode variar em torno de dez anos. O desconhecimento da doença por parte dos profissionais de saúde continua a ser uma barreira importante ao tratamento, provocando atrasos no diagnóstico.

Quem é Paulo Almeida?

Paulo Almeida é o diretor clínico do Hospital Baptista de Sousa, em São Vicente, o maior hospital público do norte de Cabo Verde. É também responsável pelas áreas de Cirurgia e Oncologia na mesma instituição, sendo uma das vozes mais ativas na defesa do reforço do diagnóstico oncológico no arquipélago.

O simpósio e a cooperação com Portugal

O Primeiro Simpósio sobre Mieloma Múltiplo realizado no Mindelo visa fortalecer a cooperação entre Cabo Verde e Portugal, contando com a participação de três representantes da Sociedade Portuguesa de Hematologia, com o objetivo de melhorar a qualidade do diagnóstico e do tratamento no arquipélago. O evento envolveu também estudantes universitários da área da saúde, considerados elementos fundamentais na divulgação de informação sobre a doença junto da comunidade.

O que fazer se houver suspeita

Em caso de anemia ou lesão óssea sem explicação aparente, deve ser excluído o diagnóstico de mieloma múltiplo. O médico irá pedir análises de sangue — hemograma, função renal, cálcio e eletroforese das proteínas — e, se houver alterações, referenciar o doente a um hematologista.

Caboverde24.info

Fonte: Hospital Baptista de Sousa

Imagem: IA

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