Um médico de Mindelo fala claro: as barreiras que impedem Cabo Verde de ter mais especialistas

“O artigo do caboverde24.info sobre saúde gerou milhares de visualizações e despertou vozes que há muito esperavam ser ouvidas — entre elas, a de um pediatra com mais de 32 anos de trabalho enraizado em São Vicente”

Quando o caboverde24.info publicou a sua análise aprofundada sobre o estado da saúde em Cabo Verde, poucos imaginavam a dimensão da resposta que se seguiria. Em poucas horas, o artigo acumulou milhares de visualizações — tanto no nosso site como na página do Facebook — tornando-se um dos conteúdos mais partilhados da nossa plataforma nos últimos meses.

O tema é daqueles que dói. A falta de especialistas, as evacuações tardias, a dependência de cooperações externas pouco eficientes, a resistência histórica às parcerias público-privadas. São questões que a maioria dos cabo-verdianos conhece bem, mas que raramente vê discutidas com a clareza e a seriedade que merecem.
A reação dos leitores foi imediata. Nos comentários ao artigo publicado no Facebook, uma voz destacou-se pela profundidade, pela experiência e pela autoridade de quem fala a partir do terreno: a do Dr. Andrés Fidalgo, médico pediatra e sócio gerente das Clínicas Medicentro, com mais de 32 anos de vida e trabalho enraizados em São Vicente.

No seu comentário — que reproduzimos com a sua autorização expressa e após revisão linguística por ele solicitada, dado o português não ser a sua língua materna — o Dr. Fidalgo não usa meias palavras. Identifica dois grandes obstáculos ao desenvolvimento da saúde em Cabo Verde: as “travas políticas” e as impostas pela própria Ordem dos Médicos de Cabo Verde (OMC). Fala de uma mentalidade que prefere “perder familiares em idades jovens” a abrir o sistema a profissionais estrangeiros qualificados. Fala de médicos cabo-verdianos que saem do país “pelo mau tratamento que lhes fazem”. Fala de especialistas europeus, latino-americanos e cubanos da diáspora, dispostos a viver e trabalhar em Cabo Verde, impedidos de o fazer por barreiras que considera injustificáveis.
E revela um facto que choca pela sua ironia: há 17 anos, entregou pessoalmente nas mãos do então ministro da saúde um projeto detalhado para a construção de um hospital público-privado nacional, com participação do INPS, capaz de tratar todas as doenças em Cabo Verde e eliminar de vez as evacuações — na sua maioria tardias — para Portugal e o Senegal. O projeto foi ignorado.
“Se continuarmos a pensar desta maneira — não permitindo a médicos estrangeiros trabalhar em Cabo Verde e empurrando os bons médicos nacionais para fora do país pelo mau tratamento que lhes fazem — vamos demorar muitos anos a alcançar o que se poderia conseguir em cinco anos”, escreve Fidalgo.

Agrava este quadro uma tensão institucional de fundo: o Ministério da Saúde já afirmou publicamente que a OMC não tem competências em matéria de regulação do acesso à profissão, que deveria ficar limitada a questões de ética e deontologia. Mas se assim é, competiria ao próprio ministério criar mecanismos alternativos — o que até hoje não aconteceu. A ERIS dispensou do seu registo os médicos inscritos nas ordens profissionais que pretendam exercer no setor privado, delegando essa função na OMC. Resultado: todos delegam, ninguém resolve.
Nas redes sociais, é opinião recorrente entre muitos cabo-verdianos que este paradoxo beneficia, ainda que indiretamente, uma parte dos próprios médicos nacionais, que se deslocam regularmente às ilhas sem especialistas — sobretudo ao fim de semana — para prestar consultas privadas a preços que a maioria da população dificilmente pode pagar. Trata-se de uma perceção amplamente partilhada, que o caboverde24.info regista sem a subscrever como facto provado, mas que merece ser conhecida e debatida publicamente.

Quem é o Dr. Andrés Fidalgo?

O Dr. Fidalgo é sócio fundador e diretor da Clínica Medicentro em São Vicente, distinguido em 2020 com um prémio internacional pela associação alemã “Friends Help Friends”, pelo seu trabalho na área da paralisia cerebral infantil e pelo apoio social prestado às populações mais carenciadas. A Medicentro é hoje a clínica com mais serviços no Barlavento, contando com meios de diagnóstico únicos na região — TAC, ressonância magnética, dois blocos operatórios e um staff fixo de mais de 30 médicos e especialistas — com unidades em Madeiralzinho, Monte Sossego e Porto Novo.

Um médico estrangeiro que escolheu Cabo Verde como pátria, que aqui construiu família, clínica e legado, que escreveu um livro sobre esse percurso — e que, após mais de três décadas ao serviço da população de São Vicente, continua a ter de recorrer a um espaço de comentário jornalístico para dizer aquilo que deveria estar no centro do debate político nacional.

O diagnóstico de quem conhece o terreno

A análise do Dr. Fidalgo é precisa. Identifica o problema de fundo: a recusa persistente do governo em adotar parcerias público-privadas — “uma prática de países livres e desenvolvidos” — em nome de uma visão que ele descreve como “mentalidade da pobreza” por oposição à “mentalidade da prosperidade”.
Questiona também o modelo da cooperação médica cubana, em que os profissionais trabalham em condições que considera indignas, e a dependência de ajudas europeias que “pouco ajudam a resolver a grande problemática da saúde”. A solução, defende, passa por políticas capazes de atrair especialistas de todas as áreas — tanto para o setor público como para o privado — e pela criação efetiva de parcerias público-privadas.

O artigo relacionado

Recordamos que…

O artigo original do caboverde24.info sobre o estado da saúde em Cabo Verde abordou a escassez de especialistas, a dependência das evacuações médicas para o exterior, as falhas estruturais do sistema público, a resistência histórica às parcerias público-privadas e as barreiras burocráticas ao exercício de médicos estrangeiros em Cabo Verde. O texto gerou milhares de visualizações e uma intensa vaga de comentários, demonstrando o quanto este tema ressoa junto da população cabo-verdiana.

Caboverde24.info
Fonte: Comentário do Dr. Andrés Fidalgo, publicado com autorização expressa do autor; Mindel Insite (novembro de 2020); página oficial Medicentro; investigação caboverde24.info sobre a Ordem dos Médicos de Cabo Verde

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