A cirurgia que mudou a história: os detalhes do primeiro transplante renal em Cabo Verde

“Precisão técnica e cooperação internacional marcam o sucesso da intervenção no Hospital Agostinho Neto.”

​O dia 24 de março de 2026 fica registado nos anais da medicina cabo-verdiana como o momento em que a alta complexidade cirúrgica se tornou uma realidade nacional. A realização do primeiro transplante renal no Hospital Universitário Agostinho Neto (HUAN), na Praia, não foi apenas um ato médico, mas uma operação de elevada precisão que envolveu equipas multidisciplinares de Cabo Verde e Portugal.

​A intervenção, que consistiu num transplante de dador vivo, focou-se na transferência de um rim saudável de uma dadora para o seu irmão, ambos cidadãos nacionais, num processo que exigiu sincronia absoluta entre dois blocos operatórios simultâneos.

O procedimento: do dador ao recetor

​A cirurgia iniciou-se com a extração do órgão da dadora (nefrectomia). Segundo o nefrologista do HUAN, Dr. Hélder Tavares, este foi um ato de profundo altruísmo. Enquanto uma equipa procedia à colheita do rim, outra preparava o recetor, um homem de 44 anos, para receber o enxerto.

A fase crítica da intervenção foi a revascularização, onde o novo rim é ligado às artérias e veias do paciente. O sucesso técnico foi confirmado assim que o órgão começou a dar sinais de funcionalidade imediata, um indicador vital para o prognóstico positivo. Após a cirurgia, o PCA do hospital, Dr. Evandro Monteiro, confirmou em conferência de imprensa que ambos os pacientes recuperaram bem da anestesia e apresentam um quadro clínico estável.

O mentor: Dr. António Norton de Matos

​Embora este artigo se foque na componente técnica da cirurgia, é impossível dissociar o feito da liderança do Dr. António Norton de Matos. O cirurgião vascular português, de 77 anos, foi o coordenador da equipa técnica lusa que apoiou os profissionais locais. Com uma carreira marcada pelo pioneirismo — tendo realizado o primeiro transplante no Porto em 1983 — Norton de Matos trouxe para a Praia a experiência de décadas, garantindo que cada passo do protocolo internacional fosse rigorosamente cumprido.

Esperança renovada para os doentes renais

​Para os pacientes cabo-verdianos em tratamento de diálise, este sucesso cirúrgico é o início de uma nova vida. A capacidade de realizar transplantes no país elimina a necessidade de evacuações traumáticas para o estrangeiro e reduz a lista de espera para uma cura definitiva. O sucesso desta intervenção prova que Cabo Verde possui agora as condições técnicas e humanas para oferecer aos seus cidadãos tratamentos de classe mundial.

Caboverde24.info

Fonte: Ministério da Saúde de Cabo Verde / Direção Clínica do HUAN

Nota Editorial: Esta cirurgia é o resultado de um protocolo de formação intensiva entre médicos cabo-verdianos e a Unidade Local de Saúde de Santo António (Portugal).

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