“Uma ilha de 4.400 habitantes no Atlântico Sul recebeu passageiros doentes do MV Hondius — e agora aguarda os resultados do rastreio de contactos com crescente apreensão.“
Uma escala que pode ter mudado tudo
Antes de chegar a Cabo Verde, o navio de expedição MV Hondius fez uma paragem na ilha de Santa Helena, entre 22 e 24 de abril de 2026. Dois passageiros com sintomas ligeiros desceram a terra e podem ter tido contacto com membros da comunidade local.
Naquele momento, ninguém sabia ainda o que se passava a bordo. O diagnóstico de hantavírus só seria confirmado dias mais tarde.
A passageira que morreu depois de desembarcar
O caso mais alarmante envolve uma cidadã holandesa de 69 anos. Ela desembarcou em Santa Helena no dia 24 de abril com sintomas gastrointestinais. No dia seguinte apanhou um voo para Joanesburgo e morreu à chegada ao serviço de urgência, a 26 de abril. A confirmação laboratorial de hantavírus só chegou a 4 de maio.
Esta mulher esteve em Santa Helena. Esteve em contacto com a comunidade local. E morreu infetada com um vírus que, nesta estirpe específica — o vírus Andes — é capaz de transmissão humano a humano em casos raros, associada a contacto próximo e prolongado.
Uma ilha vulnerável, longe de tudo
Santa Helena é um território britânico ultramarino com recursos médicos limitados, situado a mais de 1.800 km da costa africana. Uma eventual introdução do vírus numa comunidade tão pequena e isolada seria extremamente difícil de gerir.
Descoberta pelos navegadores portugueses em 1502, esta pequena ilha vulcânica de apenas 122 km² carrega uma longa história de isolamento físico, tendo servido no passado como o exílio final de Napoleão Bonaparte. Com uma população atual de aproximadamente 4.400 habitantes, a ilha tem uma economia muito dependente do apoio financeiro do Reino Unido, da exportação de café de alta qualidade, da pesca e de um setor de turismo ainda em desenvolvimento. O isolamento extremo do resto do mundo sempre foi a sua maior barreira de proteção — e, ao mesmo tempo, a sua maior fragilidade: até à inauguração do seu primeiro aeroporto em 2017, o acesso à ilha era feito exclusivamente por via marítima, numa viagem de cinco dias a partir da África do Sul. Atualmente, a ligação aérea regular é limitada a apenas um voo semanal para Joanesburgo, o que torna qualquer emergência sanitária complexa e potencialmente devastadora.
O que dizem as autoridades
O governo de Santa Helena declarou que não foram identificados casos na ilha e que o risco para a comunidade em geral é baixo. Contudo, algumas pessoas que tiveram contacto direto com os passageiros do MV Hondius foram aconselhadas a um período de isolamento precaucional, estando em curso um processo completo de rastreio de contactos.
A mensagem oficial é de cautela controlada — mas a preocupação é real e legítima.
O papel de Cabo Verde nesta história
O MV Hondius chegou às águas de Cabo Verde a 4 de maio, depois de a situação a bordo se ter tornado insustentável. Cabo Verde decidiu não autorizar a atracagem do navio no porto da Praia. Os infectados foram evacuados por aeronaves médicas com destino aos Países Baixos. O MV Hondius partiu depois em direção a Tenerife, nas ilhas Canárias.
A gestão cabo-verdiana do episódio foi considerada prudente e proporcional pela comunidade internacional.
O que acontece agora ao navio e aos passageiros
Com os infectados a caminho da Europa, o MV Hondius partiu de Cabo Verde no dia 6 de maio com 144 passageiros a bordo, todos assintomáticos, acompanhados por uma equipa de quatro profissionais de saúde. O destino é Tenerife, nas ilhas Canárias, com chegada prevista em cerca de três dias e meio.
A ministra da Saúde de Espanha, Mónica García, declarou que, uma vez em Tenerife, todos os passageiros não espanhóis serão repatriados para os seus países de origem, se continuarem sem sintomas. A repatriação deverá começar a partir de 11 de maio.
Mas nem a chegada ao porto está garantida sem polémica. O presidente do governo regional das Canárias, Fernando Clavijo, manifestou-se contra a atracagem do navio, exigindo informações mais claras sobre o surto antes de autorizar a entrada no arquipélago.
Quanto aos infectados evacuados de Cabo Verde, a viagem para os Países Baixos foi ela própria acidentada. O avião-ambulância foi impedido de reabastecer em Marrocos, forçado a aterrar inopinadamente em Gran Canaria e retido no aeroporto após uma avaria no sistema de suporte de vida de um dos doentes. A aeronave ficou efetivamente imobilizada, aguardando uma aeronave de substituição para continuar a viagem até Amesterdão.
Entretanto, surgiu um oitavo caso: as autoridades suíças confirmaram que um passageiro do MV Hondius está a ser tratado no Hospital Universitário de Zurique, com diagnóstico confirmado de vírus Andes. O balanço total é de oito casos — três confirmados laboratorialmente, os outros suspeitos — e três mortos.
A OMS mantém o nível de risco global como baixo para a população em geral, sublinhando que a transmissão humano a humano do vírus Andes só ocorre em contacto muito próximo e prolongado.
Caboverde24.info
Fonte: OMS — Disease Outbreak News, St Helena Government, Euronews – Imagem: criada com IA























