Emprestei dinheiro ao meu irmão para não perder a casa. Agora ele deixou de falar comigo

Entre as cartas que recebemos

​Há conflitos familiares que começam por grandes acontecimentos. Outros começam precisamente com um gesto feito para ajudar.

​Entre as histórias recebidas nos últimos dias para a rubrica Entre Nós, escolhemos a de uma cabo-verdiana residente na Europa que decidiu usar parte das suas poupanças para ajudar o irmão em Cabo Verde num momento particularmente difícil.

​Não foi uma oferta. Pelo menos, não era assim que ela entendia.

​Era um empréstimo entre irmãos, feito sem banco, sem contrato e praticamente sem garantias, sustentado por algo que, dentro de uma família, muitas vezes parece valer mais do que uma assinatura: a confiança.

​Meses depois, o dinheiro não regressou. E, segundo a nossa leitora, começou também a desaparecer aquilo que nunca imaginou colocar em risco: a relação com o irmão.

​Chamaremos “Lena” à autora desta carta. O nome é fictício e alguns elementos foram generalizados para preservar a sua identidade.

“Naquele momento nem pensei duas vezes”

​Lena vive na Europa há vários anos. Trabalha, tem a sua família e, como tantos cabo-verdianos na diáspora, mantém uma relação muito próxima com Cabo Verde.

​Quando o irmão lhe contou que estava a atravessar sérias dificuldades financeiras e que existia o risco de perder a casa, a primeira reação foi ajudá-lo.

​“Ele estava desesperado. Disse-me que precisava do dinheiro com urgência e que, se não conseguisse resolver a situação, poderia perder a casa. É meu irmão. Naquele momento nem pensei duas vezes.”

O valor não era pequeno para Lena.

​Representava uma parte importante das poupanças que tinha conseguido juntar trabalhando no estrangeiro. Ainda assim, decidiu enviá-lo.

​Segundo conta, ficou combinado que o irmão começaria a devolver o dinheiro gradualmente assim que a situação melhorasse.

​Não fizeram contrato.

​Não houve reconhecimento de dívida.

​Não estabeleceram sequer um calendário rigoroso.

​E Lena admite hoje que nunca imaginou que fosse necessário.

​“Na minha cabeça era simples. Eu ajudava-o naquele momento e depois ele ia pagando aos poucos. Nunca pensei em papéis porque estava a emprestar dinheiro ao meu próprio irmão.”

O tempo passou e o dinheiro não voltou

​Nos primeiros meses, Lena evitou tocar no assunto.

​Sabia que o irmão ainda estava a recuperar financeiramente e não queria aumentar a pressão.

​Depois começou a perguntar.

​Primeiro de forma discreta. Mais tarde, de maneira mais direta.

​As respostas, segundo relata, começaram a mudar.

​Havia sempre uma nova dificuldade, uma nova despesa ou uma nova razão para esperar mais um pouco.

​Até que as conversas sobre o dinheiro começaram a transformar-se em discussões.

​“Um dia ele perguntou-me se eu precisava assim tanto do dinheiro. Aquilo magoou-me. Não é uma questão de estar a passar fome. É dinheiro que trabalhei para ganhar e que lhe emprestei porque confiei nele.”

​Foi nesse momento que Lena começou a sentir que o problema já não era apenas financeiro.

“Parece que agora sou eu a pessoa má”

​A situação acabou por chegar ao conhecimento de outros familiares.

​E aquilo que inicialmente dizia respeito apenas aos dois irmãos começou a dividir a família.

​Alguns disseram a Lena que deveria ter paciência.

​Outros lembraram-lhe que vive na Europa e, portanto, teria melhores condições económicas.

​Houve ainda quem lhe dissesse que dinheiro não deveria destruir uma relação entre irmãos.

​É precisamente essa frase que mais a incomoda.

​“Dizem-me que família vale mais do que dinheiro. Eu sei disso. Foi exatamente por pensar assim que o ajudei. Mas por que sou eu que tenho de esquecer o dinheiro para provar que gosto da minha família?”

​Lena diz que não pretende colocar o irmão numa situação impossível nem exige que o valor seja devolvido imediatamente.

​O que gostaria de sentir é que existe vontade de cumprir aquilo que foi combinado.

​Mas as chamadas tornaram-se menos frequentes.

​As mensagens recebem respostas cada vez mais curtas.

​E houve períodos em que o irmão simplesmente deixou de responder.

​“Antes falávamos de tudo. Agora, quando telefono, sinto que ele pensa logo que vou falar do dinheiro.”

O medo de perder mais do que as poupanças

​É aqui que a história deixa de ser apenas uma questão financeira.

​Lena começa a perguntar-se quanto vale a pena insistir.

​Se continuar a exigir a devolução, teme afastar definitivamente o irmão.

​Se desistir, sente que estará a aceitar uma injustiça e que dificilmente conseguirá esquecer o ressentimento.

​“Às vezes penso: deixa o dinheiro e recupera o teu irmão. Mas depois pergunto-me se vou conseguir olhar para ele da mesma maneira sabendo que fui eu quem teve de fingir que nada aconteceu.”

​A pergunta que nos deixa é simples apenas na aparência:

​é melhor desistir de uma dívida para salvar uma relação familiar ou continuar a exigir aquilo que foi combinado, mesmo correndo o risco de perder o irmão?

Resposta da Direção

​Cara Lena,

​O seu dilema não parece ser apenas entre dinheiro e família.

​Há uma terceira coisa no meio: confiança.

​Quando decidiu ajudar o seu irmão, não fez apenas uma transferência. Assumiu um risco porque acreditava que entre vocês existia uma palavra dada.

​Por isso, reduzir agora a situação à ideia de que “família vale mais do que dinheiro” parece-nos injusto.

​A família vale mais do que dinheiro, certamente. Mas essa afirmação deve funcionar nos dois sentidos.

​Se quem emprestou deve compreender as dificuldades de quem recebeu, quem recebeu também deve reconhecer o esforço e o sacrifício de quem decidiu ajudar.

​Ao mesmo tempo, talvez seja importante separar duas situações muito diferentes: não poder pagar e não querer assumir a dívida.

​Se o seu irmão continua numa situação económica difícil, pode não conseguir devolver agora aquilo que recebeu. Nesse caso, uma conversa tranquila poderia servir para estabelecer um compromisso realista: pouco dinheiro de cada vez, prazos maiores ou mesmo um período de espera.

​Mas se deixou simplesmente de reconhecer a obrigação e passou a tratá-la como culpada por pedir o que é seu, então o problema já ultrapassa a capacidade financeira.

​O nosso conselho seria tentar uma última conversa em que o objetivo não seja cobrar naquele momento, mas perceber claramente o que ele pretende fazer.

​Pergunte-lhe, sem acusações:

​“Tu ainda consideras que este dinheiro foi um empréstimo que tens intenção de devolver?”

​A resposta pode esclarecer muito.

​Não nos parece necessário escolher imediatamente entre “perder o dinheiro” e “perder o irmão”.

​Pode existir um terceiro caminho: reconhecer as dificuldades dele, estabelecer limites para si e procurar reconstruir uma relação na qual ambos assumam responsabilidades.

​E há também uma aprendizagem que esta história deixa para outras famílias: colocar por escrito um empréstimo não significa desconfiar de alguém que amamos.

​Às vezes significa precisamente proteger a relação.

​Porque quando as condições estão claras desde o início, há menos espaço para que, mais tarde, cada pessoa se recorde do acordo de maneira diferente.

​Esperamos sinceramente que o seu irmão consiga compreender que pedir a devolução do dinheiro não significa deixar de gostar dele.

​E esperamos também que a senhora consiga proteger aquilo que construiu com o seu trabalho sem permitir que o ressentimento tome definitivamente o lugar que antes pertencia à relação entre vocês.

E você, o que faria?

​Desistiria do dinheiro para tentar recuperar a relação com o irmão?

​Ou continuaria a exigir a devolução daquilo que foi emprestado?

​Entre Nós nasceu precisamente para falar das histórias que muitas vezes permanecem dentro de casa.

​Se está a viver um dilema amoroso, familiar, financeiro ou pessoal; se carrega uma história que gostaria de contar; ou simplesmente precisa de partilhar aquilo que está a viver, escreva para a redação do Caboverde24.info.

​A sua identidade será preservada e a sua história poderá ser escolhida para uma das próximas edições de Entre Nós.

​Porque, às vezes, contar aquilo que estamos a viver é também uma maneira de descobrir que não somos os únicos.

Caboverde24.info

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