“Relembramos o naufrágio que marcou a navegação interilhas e deixou uma ferida aberta na memória coletiva de Cabo Verde”
No dia 8 de janeiro de 2015, o navio de carga e passageiros “Vicente”, da responsabilidade da desaparecida Tuninha, operada pela Fast Ferry, afundou-se a cerca de quatro milhas náuticas do Porto de Vale de Cavaleiros, na ilha do Fogo. O navio partira da Praia com 26 pessoas a bordo e uma carga pesada de materiais de construção e contentores. O desastre resultou em apenas 11 sobreviventes, 1 morte confirmada e 14 desaparecidos, tornando-se uma das maiores tragédias marítimas da história moderna do país.
A data de 8 de janeiro permanece gravada na consciência de todos os cabo-verdianos como um dia de luto e de profunda reflexão sobre a segurança nos nossos mares. Onze anos depois do naufrágio do navio “Vicente”, as ondas que batem na costa da ilha do Fogo ainda trazem o eco de uma noite de angústia que mudou para sempre a vida de dezenas de famílias.
Uma viagem de rotina que se tornou pesadelo
O “Vicente” largou o Porto da Praia com o destino habitual: a ilha do Fogo. Transportava não só mercadorias essenciais para a economia local, mas também sonhos e trabalhadores que regressavam a casa. O que deveria ter sido uma travessia de poucas horas transformou-se num cenário de caos quando, já próximo do seu destino, o navio sucumbiu à força do mar e, possivelmente, a problemas de estabilidade relacionados com a carga.
O alerta de socorro foi dado, mas a fúria do oceano naquela noite dificultou as operações de resgate. Durante horas, o país parou, com os olhos postos no horizonte de Vale de Cavaleiros, à espera de notícias que, infelizmente, confirmariam o pior.
As lições de uma tragédia
O naufrágio do “Vicente” não foi apenas um acidente; foi um divisor de águas para a governação marítima em Cabo Verde. Na sequência do desastre, gerou-se um intenso debate nacional sobre:
- A idade e o estado de conservação da frota interilhas.
- O rigor na inspeção e no carregamento dos navios nos nossos portos.
- A capacidade de resposta e salvamento (Search and Rescue) em águas territoriais.
Este evento catalisou reformas importantes na Agência Marítima Nacional e impulsionou a renovação da frota que vemos hoje, embora muitos argumentem que o caminho para a segurança total ainda é longo.
Honrar a memória
Lembrar o 8 de janeiro é, acima de tudo, uma obrigação moral para com as vítimas e as suas famílias. Muitos dos que partiram eram jovens pais, profissionais dedicados e cidadãos que apenas cumpriam o seu dever. A ausência de respostas definitivas para algumas famílias, cujos entes queridos nunca foram recuperados do mar, é uma dor que o tempo apenas atenua, mas não apaga.
Para o povo do Fogo e de Santiago, as duas ilhas mais ligadas por esta rota, a tragédia do “Vicente” serve como um lembrete constante da nossa vulnerabilidade enquanto nação arquipelágica. O mar, que nos une e nos alimenta, exige respeito e, acima de tudo, uma vigilância que nunca pode baixar a guarda.
Hoje, prestamos homenagem àqueles que o mar guardou para si e reafirmamos o compromisso de que o seu sacrifício não seja esquecido, exigindo sempre que a segurança das pessoas esteja acima de qualquer lucro ou conveniência logística.
Caboverde24.info
Fonte: Relatório Técnico da Comissão de Investigação de Acidentes Marítimos (CIAM) sobre o naufrágio do N/M Vicente. Agência Marítima e Portuária (AMP) de Cabo Verde







































