“Dados do sistema de vigilância EuroMOMO confirmam excesso de mortalidade “anormal” no início de 2026. Combinação de frio intenso e gripe H3N1 pressiona o sistema de saúde e preocupa a comunidade na diáspora”
Portugal regista, neste início de ano, a taxa de mortalidade excessiva mais elevada de toda a Europa. Os dados, confirmados pelo sistema de vigilância europeu EuroMOMO, revelam uma realidade que exige atenção: na primeira semana de janeiro, o país ultrapassou consistentemente a barreira dos 500 óbitos diários (mortalidade por todas as causas).
Este número representa um desvio estatístico significativo, classificado como “anormal” pelas autoridades de saúde. O pico de excesso de mortalidade atingiu os 52% no dia 2 de janeiro, um valor muito superior ao que seria estatisticamente expectável para a estação fria. É fundamental esclarecer que, embora estes 500 óbitos diários não sejam todos causados diretamente pela gripe, o aumento súbito da mortalidade geral está indissociavelmente ligado à intensa atividade epidémica e às condições meteorológicas adversas.
A convergência de fatores: frio e H3N1
O Ministério da Saúde português e a Direção-Geral da Saúde (DGS) justificam este cenário com a convergência de dois fatores principais, criando uma pressão acrescida sobre a saúde pública:
- Frio e condições habitacionais: Portugal tem sido afetado por uma massa de ar frio persistente. A precariedade térmica de muitas habitações portuguesas, que dificilmente retêm o calor, expõe a população — especialmente os idosos — a um esforço fisiológico contínuo para manter a temperatura corporal, o que fragiliza o sistema imunitário e agrava condições preexistentes.
- Agressividade viral (H3N1): O Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) identificou a circulação dominante do vírus da gripe Influenza A (H3N1). Esta estirpe é historicamente conhecida por ser mais agressiva para a população acima dos 65 anos do que outros subtipos, estando frequentemente associada a um maior número de hospitalizações por pneumonias e descompensação de doenças crónicas.
Serviço Nacional de Saúde sob pressão
O reflexo deste aumento da morbilidade é visível nas portas das urgências. As principais unidades hospitalares da Grande Lisboa e do Norte do país reportam uma afluência massiva. Hospitais de referência enfrentam dificuldades no escoamento de doentes para internamento, o que gera longos tempos de espera para situações não urgentes e obriga à permanência de doentes em observação nos corredores.
O aumento dos óbitos ocorre maioritariamente devido à descompensação de patologias como a insuficiência cardíaca, doenças respiratórias crónicas e diabetes, precipitadas pela infeção viral ou pela exposição ao frio.
Impacto na comunidade Cabo-Verdiana
Para Cabo Verde, estas notícias geram natural apreensão e exigem vigilância. A diáspora cabo-verdiana em Portugal é vasta e, numa fatia significativa, envelhecida. A primeira geração de imigrantes, que chegou a Portugal nas décadas de 70 e 80, encontra-se hoje na faixa etária de maior risco (acima dos 65 anos).
Adicionalmente, a força de trabalho cabo-verdiana é um pilar fundamental nos setores de apoio social e saúde. Milhares de crioulos trabalham em lares de idosos, apoio domiciliário e limpezas hospitalares. Estes profissionais estão na linha da frente, expostos diariamente a ambientes de risco, desempenhando um papel crucial na manutenção dos cuidados num sistema em esforço.
Recomendações oficiais
As autoridades de saúde reforçam que existem medidas eficazes para mitigar o risco. É importante que as famílias em Cabo Verde incentivem os seus parentes em Portugal a seguir as recomendações da DGS:
- Utilizar o SNS 24 (808 24 24 24): Antes de se deslocar ao hospital, é imperativo ligar para a linha de saúde. A triagem telefónica encaminha os casos ligeiros para os Centros de Saúde, evitando a exposição a ambientes hospitalares saturados.
- Vacinação: A vacinação contra a gripe e a COVID-19 continua a ser a ferramenta mais eficaz para prevenir a doença grave.
- Proteção térmica: Manter o corpo quente com várias camadas de roupa e garantir a ingestão frequente de líquidos é vital para os mais velhos.
- Rede de apoio: A solidariedade é essencial. Verificar regularmente o estado de saúde de familiares e vizinhos idosos que vivam sozinhos pode fazer a diferença na deteção precoce de situações graves.
O cenário em Portugal exige cautela e prevenção. O sistema de saúde mantém a sua capacidade de resposta para casos urgentes, mas a colaboração de todos é necessária para proteger os mais vulneráveis durante este pico de inverno.
Caboverde24.info
Fontes: Os dados baseiam-se nos relatórios do EuroMOMO e na vigilância diária do SICO/DGS.







































