O Tribunal de Apelação de Paris considerou as duas empresas “únicas e inteiramente responsáveis” pela maior tragédia da aviação francesa, que ceifou 228 vidas sobre o Atlântico em 2009.
Uma decisão histórica após 17 anos
A justiça francesa reconheceu, na quinta-feira dia 21 de maio de 2026, a total responsabilidade da Air France e da Airbus pelo acidente com o voo AF447, que matou 228 pessoas, incluindo 58 brasileiros, em 1 de junho de 2009.
A decisão histórica do Tribunal de Apelações de Paris reverte a absolvição concedida às empresas em primeira instância e atribui às duas companhias responsabilidade exclusiva pela maior catástrofe da aviação francesa.
O tribunal concluiu que as duas empresas foram as “únicas e inteiramente responsáveis” pelo desastre. Cada companhia recebeu a multa máxima prevista de 225 mil euros.
O acidente que abalou o mundo
O Airbus A330 da Air France decolou do Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, na noite de 31 de maio de 2009, com destino a Paris. A bordo estavam 216 passageiros e 12 tripulantes. A aeronave desapareceu sobre o Oceano Atlântico durante uma tempestade intensa, tornando-se um dos maiores mistérios da aviação moderna.
Enquanto cruzava o Oceano Atlântico, a aeronave enfrentou uma tempestade intensa que fez com que seus sensores fossem bloqueados pelo gelo, causando uma leitura incoerente de velocidade.
Cabo Verde esteve presente, ainda que de forma indireta, naquele momento dramático: o assessor de imprensa da Aeronáutica brasileira declarou à televisão que o radar de Cabo Verde não havia captado o sinal do avião sobre o Oceano Atlântico, dando uma dimensão da vastidão do espaço aéreo onde o aparelho se perdeu — uma zona que inclui as águas próximas do arquipélago cabo-verdiano.
Os investigadores provaram que a Air France falhou ao não fornecer treinamento adequado para que seus pilotos soubessem como agir em panes de leitura de velocidade em altitudes elevadas. A empresa também ignorou o histórico de incidentes parecidos que já haviam acontecido em outros voos da sua frota. A Airbus recebeu a condenação por ter subestimado os defeitos crónicos de fabricação nas sondas Pitot. Os diretores da fabricante esconderam a gravidade dos problemas técnicos e demoraram para enviar comunicados de alerta às companhias aéreas que operavam os jatos.
Uma longa batalha judicial
Em abril de 2023, a justiça absolveu as duas companhias, em primeira instância, das acusações criminais, mas admitiu a responsabilidade civil da Air France e da Airbus pela queda do avião. Os parentes das vítimas recorreram da sentença de 2023 e, em 2025, o Ministério Público francês passou a atuar pela condenação das duas companhias, por imprudência e negligência.
O veredicto é o mais recente marco numa maratona judicial que envolve familiares das vítimas, principalmente francesas, brasileiras e alemãs, e duas das empresas mais emblemáticas de França.
Vitória moral, mais do que financeira
As multas, que representam apenas uma fração da receita de qualquer uma das empresas, foram amplamente consideradas como uma sanção simbólica. Mas grupos de familiares afirmaram que uma condenação representaria um reconhecimento formal da sua situação.
O vice-presidente da Associação de Familiares das Vítimas do Voo Air France 447 declarou que a decisão representa um “alívio” para os parentes e amigos dos 216 passageiros e 12 tripulantes de 33 nacionalidades que morreram a bordo da aeronave.
“Foi feita justiça”, declarou Daniele Lamy, presidente da associação de vítimas do voo AF447, à saída do tribunal. Lamy perdeu o filho no acidente.
O que muda para a aviação no Atlântico
A decisão tem implicações que vão além do caso AF447. Para países como Cabo Verde, cujo espaço aéreo e marítimo está inserido no corredor do Atlântico Médio — a mesma zona onde o AF447 se perdeu — a condenação reforça a exigência de transparência dos fabricantes e das companhias aéreas sobre falhas técnicas dos seus aparelhos. A Cabo Verde Airlines opera precisamente neste corredor, com rotas para a Europa, o Brasil e a América do Norte. A segurança dos sensores e a formação das tripulações são, portanto, matérias diretamente relevantes para a aviação nacional.
A Airbus afirmou que irá recorrer para o tribunal superior de França para abordar questões jurídicas levantadas pelo julgamento, mas a presidente da associação de vítimas instou a fabricante de aviões e a Air France a não levarem o caso mais longe.
Recordamos que…
O voo AF447 desapareceu na madrugada de 1 de junho de 2009 durante a rota Rio de Janeiro–Paris. Os destroços e as caixas negras só foram recuperados em abril de 2011, ao fim de quase dois anos de buscas no fundo do Atlântico. Em 2023, um tribunal de primeira instância absolveu Airbus e Air France. Os familiares das vítimas recorreram, e o Ministério Público francês associou-se ao recurso. Em 21 de maio de 2026, o Tribunal de Apelação de Paris condenou ambas as empresas por homicídio culposo, impondo a multa máxima de 225 mil euros a cada uma.
Caboverde24.info
Fonte: Tribunal de Apelação de Paris / Le Monde







































