Voos dos dois aviões da CVSky com atrasos regulares, enquanto avião alugado à Mauritânia cumpre o horário

“Análise aos dados da primeira quinzena de Janeiro mostra que a mudança de ano não resolveu os “velhos” problemas. A frota nacional mantém índices de irregularidade superiores a 60%, contrastando com a pontualidade do aparelho em wet-lease”

É importante recordar que, no passado dia 27 de Dezembro, o Cabo Verde 24 publicou uma análise detalhada indicando que 62% dos voos domésticos registaram atrasos significativos durante a quadra natalícia. Na altura, a expectativa pública recaía sobre a entrada da nova administração executiva, aguardando-se medidas que pudessem inverter a tendência. Contudo, os dados recolhidos entre 1 e 16 de Janeiro de 2026 demonstram que as assimetrias na operação persistem.

A mudança de ano e de administração na companhia aérea de bandeira trouxe a esperança de uma normalização nos transportes aéreos interilhas, mas os números da primeira quinzena de Janeiro de 2026 contam uma história diferente. Uma análise exclusiva do Cabo Verde 24 aos registos de voo revela que a operação continua a sofrer de graves assimetrias, dependendo se o passageiro embarca num avião da frota própria ou no aparelho alugado.

A “lotaria” dos percentuais: Dados de Janeiro

A nossa análise monitorizou o comportamento das três aeronaves principais ao serviço da companhia entre 1 e 16 de Janeiro. Os resultados estatísticos expõem a dimensão do problema:

  • O “Relógio” Mauritano (5T-CSD): O ATR 72-500 alugado à Global Aviation apresenta uma taxa de pontualidade estimada em 85%. Na grande maioria dos voos, este aparelho aterra na hora prevista ou até com ligeira antecipação, operando como o garante da estabilidade da rede.

  • A irregularidade nacional (D4-CCN e D4-CCM): Em contraste, os dois aviões da CVSky (D4-CCN e D4-CCM) operam com taxas de irregularidade preocupantes. O aparelho D4-CCN, o mais crítico da frota, regista atrasos (moderados a graves) em cerca de 65% a 70% das suas ligações. Já o D4-CCM navega frequentemente com desvios de horário, cumprindo a agenda rigorosa em apenas cerca de metade das rotações.

Estes dados significam que, ao comprar um bilhete num avião da frota própria, o passageiro tem, estatisticamente, mais probabilidade de sofrer um atraso do que de chegar a horas.

O fenómeno atingem também o Chefe de Estado

As limitações operacionais da frota própria acabam por ter um impacto transversal. Um exemplo ilustrativo desta realidade ocorreu esta sexta-feira, 16 de Janeiro, quando a Presidência da República confirmou que o Chefe de Estado, José Maria Neves, se viu forçado a alterar a sua agenda oficial devido a uma “avaria técnica” na aeronave que o deveria transportar de São Vicente para a Praia.

O incidente, noticiado pelo portal Inforpress, implicou o cancelamento de audiências previstas com representantes da sociedade civil no âmbito da auscultação para a marcação das eleições legislativas. Este episódio sublinha a abrangência das dificuldades atuais, demonstrando que a instabilidade da frota condiciona não apenas a mobilidade dos cidadãos e o setor turístico, mas interfere também no normal funcionamento das instituições de soberania.

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Janeiro vs. Dezembro: O que mudou?

No passado dia 27 de Dezembro, publicámos um levantamento indicando que 62% dos voos domésticos registaram atrasos significativos durante a quadra natalícia. Ao compararmos esse cenário com os dados das primeiras duas semanas de Janeiro, a conclusão é clara: não houve uma melhoria estrutural na frota da casa. A percentagem de atrasos nos aviões próprios (especialmente no D4-CCN) continua a orbitar os mesmos valores críticos de Dezembro. A estabilidade aparente em algumas rotas deve-se quase exclusivamente à performance do avião alugado (5T-CSD), que mascara a média global da companhia. A operação não se tornou mais eficiente per se; tornou-se dependente da eficiência de um parceiro externo.

Gestão, regulação e recursos

Esta disparidade de performance — com um avião de 18 anos em wet-lease a superar a frota moderna de 7 anos nas mesmas rotas — coloca o foco na gestão operacional. Se as condições meteorológicas e aeroportuárias são iguais para todos, os atrasos sistemáticos da frota nacional apontam para falhas nos processos de escala, manutenção ou gestão de tripulações. Do lado da regulação, a Agência de Aviação Civil (AAC) mantém uma postura discreta, apesar da persistência de constrangimentos que afetam a economia nacional.

Importa ainda sublinhar que estes resultados desapontantes surgem num contexto que deveria ser favorável. Recorde-se a recente entrada em funções da marca CVSky, criada especificamente para otimizar a operação doméstica, e a aprovação de uma nova garantia financeira (aval) por parte do Estado à TACV. Os contribuintes e passageiros cabo-verdianos esperavam que o reforço do apoio estatal e a nova estrutura dedicada se traduzissem rapidamente em melhorias visíveis. Contudo, os dados de Janeiro mostram que, até ao momento, nem a reorganização interna nem o novo fôlego financeiro foram suficientes para garantir a regularidade que o país exige.

Cape Verde 24.info 

Nota editorial: O presente artigo resulta de uma análise detalhada e independente realizada pelo Cabo Verde 24, baseada nos registos de rastreio de voo da plataforma Flightradar24, abrangendo a totalidade das operações das três aeronaves mencionadas entre os dias 1 e 16 de Janeiro de 2026.

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