Polícia que matou cabo-verdiano Odair Moniz deve ir para a prisão, diz o Ministério Público português

​“Nas alegações finais do julgamento que abalou a comunidade cabo-verdiana em Portugal, o Ministério Público pediu entre 8 e 16 anos de prisão para o agente da PSP Bruno Pinto, rejeitando a tese da legítima defesa. A decisão do tribunal está marcada para 15 de junho.”

Tudo começa — e talvez termine — numa faca. Ou melhor, numa faca que, segundo o Ministério Público, nunca existiu como ameaça real.

​Na madrugada de 21 de outubro de 2024, Odair Moniz, cabo-verdiano de 43 anos residente no Bairro do Zambujal, na Amadora, foi mortalmente baleado pelo agente da PSP Bruno Pinto, no bairro da Cova da Moura, após uma fuga a pé na sequência de uma infração rodoviária. Dois tiros. Um no tórax, disparado a entre 20 e 50 centímetros de distância. Outro na virilha, disparado a entre 75 centímetros e um metro. Ambos fatais.

​Desde então, o caso dividiu Portugal e sacudiu a comunidade cabo-verdiana emigrada — não apenas pelo drama humano, mas pela questão que ficou por responder durante meses: havia ou não havia uma faca?

O que as câmaras mostraram — e o que não mostraram

​Ao longo de meses de julgamento no Tribunal de Sintra, dezenas de testemunhas foram ouvidas. A narrativa da defesa assentou sempre no mesmo argumento: o agente Bruno Pinto disparou porque viu Odair Moniz empunhar uma faca, sentindo a sua vida em perigo.

​O problema é que as imagens não confirmam essa versão. A inspetora-chefe da Polícia Judiciária, Cláudia Soares, que coordenou toda a investigação, foi clara perante o tribunal: “É a minha convicção que não existiu uma arma branca.” As câmaras de vigilância não mostram qualquer faca nas mãos da vítima. Quando o corpo caiu, não havia faca visível. A faca que foi depois encontrada no local só apareceu nas imagens em momento posterior aos disparos fatais, sem qualquer vestígio biológico suficiente que a ligasse a Odair Moniz.

​Dois agentes da PSP foram entretanto constituídos arguidos por falsidade de testemunho, por apresentarem versões contraditórias sobre onde e quando encontraram essa faca na cena do crime.

O pedido do Ministério Público

​Nas alegações finais, realizadas a 18 de maio de 2026, o procurador Pedro Pereira foi direto: “Não existem causas que justifiquem a conduta do arguido.”

​O Ministério Público pediu a condenação por homicídio — crime que prevê pena entre 8 e 16 anos de prisão — e a expulsão definitiva de Bruno Pinto da PSP. O procurador rejeitou a tese da legítima defesa, argumentando que, mesmo que Odair Moniz tenha resistido à detenção e chegado a agredir fisicamente os agentes, não se verificou qualquer situação de violência extrema que justificasse o recurso à arma de fogo. Acrescentou ainda que um agente da PSP “deveria estar devidamente habilitado para exercer as suas funções” sem necessidade de disparar sobre um homem em fuga.

​Quem era Odair Moniz?

​Odair Moreno Moniz tinha 43 anos, era natural de Cabo Verde e vivia em Portugal há cerca de duas décadas, no Bairro do Zambujal, na Amadora. Deixou viúva e dois filhos. Era muito conhecido no bairro, onde a sua morte causou comoção e revolta imediatas. O seu caso tornou-se símbolo de um debate mais amplo sobre a relação entre as forças de segurança e as comunidades integradas.

We recall that...

Na madrugada de 21 de outubro de 2024, o cidadão cabo-verdiano Odair Moniz foi morto a tiro pelo agente da PSP Bruno Pinto na Cova da Moura. O caso seguiu para julgamento no Tribunal de Sintra e, a 18 de maio de 2026, o Ministério Público apresentou as alegações finais, pedindo uma pena de 8 a 16 anos de prisão para o polícia e rejeitando a tese de legítima defesa. A leitura da sentença final está agendada para o próximo dia 15 de junho.

​Caboverde24.info

​Fonte: RTP / CNN Portugal

Foto: DR

Defesa insiste — e questiona a perícia

​Do lado da defesa, o advogado Ricardo Serrano Vieira não questionou a existência da faca, mas o método pericial utilizado pela PJ: alegou que a primeira análise recorreu a vapor, o que terá eliminado qualquer vestígio biológico capaz de identificar Odair Moniz. Defendeu ainda que um reflexo visível nas imagens de videovigilância corresponde à presença de uma faca, e que a existência desta arma “foi habilmente retirada da acusação.”

​O procurador respondeu em tribunal referindo a credibilidade internacional da PJ e rejeitando as insinuações sobre a qualidade das perícias realizadas.

​O próprio arguido, na primeira sessão do julgamento — iniciado a 22 de outubro de 2025 — pediu desculpa à família de Odair Moniz, mas manteve que discordava dos factos da acusação. Em julgamento, descreveu a vítima como uma pessoa de comportamento imprevisível e sugeriu que Odair teria conhecimentos de artes marciais que teriam dificultado a sua detenção.

​15 de junho: a data que a diáspora aguarda

​A leitura do acórdão está marcada para 15 de junho de 2026, às 15h30, no Tribunal de Sintra. Será um momento de enorme expectativa para a comunidade cabo-verdiana em Portugal, que acompanhou este caso desde a primeira hora.

​A morte de Odair Moniz desencadeou em outubro de 2024 uma onda de protestos na Grande Lisboa, com manifestações de rua e um debate público intenso sobre violência policial e os direitos da diáspora africana em Portugal. Milhares de pessoas marcharam nas ruas de Lisboa poucos dias depois do homicídio.

​Seja qual for a decisão, o caso Odair Moniz já deixou uma marca. Colocou em evidência as contradições de um sistema em que a palavra de um agente de polícia pode bastar — até as câmaras de vigilância provarem o contrário.

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