“Segundo maior grupo bancário da UEMOA, com 10 mil milhões de dólares em ativos, recebeu luz verde do BCV para adquirir 59,81% do Banco Comercial do Atlântico por 70,5 milhões de euros”
O Banco de Cabo Verde autorizou, no passado dia 24 de novembro, a aquisição de 59,81% do Banco Comercial do Atlântico (BCA) pela Coris Holding, numa operação avaliada em 70,5 milhões de euros. Mas quem é este grupo bancário burkinabé que está prestes a tornar-se o novo acionista maioritário de um dos dois bancos de elevada importância sistémica de Cabo Verde?
1. Das cinzas às estrelas: A origem do Grupo Coris
A história do Grupo Coris é indissociável da trajetória do seu fundador, Idrissa Nassa, um empreendedor burkinabé que começou a sua carreira em 1984 no sector da indústria de bicicletas e no comércio internacional.
Nos anos 90, Nassa já era um dos maiores comerciantes de produtos de grande consumo na África Ocidental.
A entrada no sector bancário aconteceu em 2001, quando adquiriu a Financière du Burkina (FIB), uma instituição financeira em profunda crise. Em 2008, transformou-a no Coris Bank International (CBI), dando início a uma das histórias de crescimento mais notáveis do sector bancário africano.
Idrissa Nassa foi distinguido em 2025 como CEO do Ano no Africa CEO Forum, reconhecimento que coroa uma carreira dedicada à expansão da inclusão financeira em África. Em 2024, concluiu um Executive MBA em Inteligência Económica na Escola de Guerra Económica de Paris, com uma tese sobre “A Guerra Económica do Fosfato no Mundo”.
2. Uma potência bancária Pan-Africana
Atualmente, a Coris Holding é o segundo maior grupo bancário da União Económica e Monetária Oeste-Africana (UEMOA), com uma quota de mercado próxima dos 10%, classificada pela Comissão Bancária da UMOA em 2024.
O banco está cotado na Bolsa Regional de Valores de Abidjan (BRVM) desde a sua criação, sendo uma das poucas instituições bancárias africanas com ações negociadas publicamente. A capitalização bolsista situa-se em cerca de 503 milhões de euros, ocupando o 4º lugar no sector financeiro da BRVM.
3. Presença geográfica: de Ouagadougou a Cabo Verde
O Coris Bank International opera sob a marca “Coris Bank International” e está presente em:
África Ocidental (UEMOA):
- Burkina Faso (sede – Ouagadougou)
- Costa do Marfim
- Mali
- Togo
- Benim
- Senegal
- Níger
- Guiné-Bissau
Fora da UEMOA:
- Guiné-Conacri
- Chade
Em processo de entrada:
- Cabo Verde (aquisição do BCA aprovada)
Gabão (negociações em curso) - Mauritânia (aprovação regulatória pendente)
- Camarões (veto das autoridades em 2024)
4. Modelo de negócio: Foco nas PME e inclusão financeira
- Banca Universal convencional
- Presente em 10 países africanos
- Foco em PME/PMI e empresários locais
- Serviços de mobile banking (Coris Money)
- Plataforma MyCoris Bank (web e mobile)
- Banking digital para particulares e empresas
- Microcrédito e microfinanças
- Filiais no Benim, Burkina Faso e Costa do Marfim
- Foco na massificação dos serviços financeiros
- Subsidiária de financiamento islâmico
- Presente em sete países
- Oferece soluções financeiras compatíveis com a Sharia
- Nota importante: Representa apenas uma pequena parte do grupo, que é fundamentalmente um banco convencional
5. Expansão agressiva nos últimos anos
A estratégia de crescimento do Coris tem sido marcada por aquisições estratégicas e expansão orgânica:
Investimento recente (2024): 100 milhões de euros de Mediterrania Capital Partners e consórcio de instituições europeias de desenvolvimento (FMO, British International Investment, BIO, Impact Fund Denmark).
6. Apoio de instituições financeiras internacionais
O crescimento do Coris tem contado com o apoio de importantes instituições de desenvolvimento, que reconhecem o seu papel na inclusão financeira:
Parceiros financeiros:
- IFC (World Bank Group): Facilidades de trade finance para Guiné (5 milhões USD) e Senegal (10 milhões USD)
- Mediterrania Capital Partners: Investimento de 100 milhões EUR (2024)
- FMO (Holanda): Financiamento de 20 milhões EUR
- British International Investment: Co-investidor
- BIO (Bélgica): Co-investidor
- Impact Fund Denmark: Co-investidor
- Proparco: Parceiro em operações de trade finance
7. O que esperar da chegada a Cabo Verde
Com base no histórico do Coris nas aquisições recentes, espera-se:
Curto prazo:
- Manutenção da operação atual do BCA
- Preservação da equipa cabo-verdiana
- Continuidade dos serviços aos clientes
Médio/longo prazo:
- Introdução de soluções digitais do grupo
- Expansão da oferta para PME
- Reforço da inclusão financeira
- Posicionamento de Cabo Verde como hub lusófono
O BCA representa para o Coris a primeira incursão significativa fora da zona do franco CFA e a entrada na comunidade económica lusófona africana.
8. Um banco estratégico
O BCA não é um banco qualquer:
- 2º banco de “elevada importância sistémica” em Cabo Verde
- Classificado com 260,46 pontos pelo BCV (apenas a CECV tem classificação superior)
- Rede em todas as 9 ilhas habitadas
- Criado em 1993 como pilar do sistema financeiro nacional
Conclusão
A entrada do Grupo Coris em Cabo Verde marca a chegada de um dos grupos bancários mais dinâmicos da África Ocidental, com uma trajetória que levou os seus ativos de 3 milhões para 10 mil milhões de dólares em 16 anos.
O Coris não é um grupo islâmico, mas sim um banco universal convencional que oferece também serviços de banca islâmica através de uma subsidiária especializada. O foco principal é o financiamento das PME e a inclusão financeira.
Para Cabo Verde, esta operação pode significar acesso a soluções digitais já testadas em múltiplos mercados africanos e integração numa rede bancária regional mais ampla, consolidando o arquipélago como ponte entre a África francófona e lusófona.
Cabo Verde24
Fontes:
Banco de Cabo Verde
The Africa Report
Billionaires Africa
Wikipedia
L’Economiste du Faso
FMO
Financial Afrik







































