“Dois festivais tradicionais, grande mobilização e constrangimentos nos transportes que afetaram a presença de artistas.”
Cabo Verde viveu um fim de semana marcado pela frustração e pelos constrangimentos nos transportes. Enquanto os palcos se erguiam em São Nicolau e Santo Antão e públicos aguardavam grande música, a velha fragilidade do sistema de transportes voltou a colocar-se no centro da festa. Tabanka Djaz, uma das bandas mais aguardadas dos cartazes, acabou por ficar impedida de atuar nos dois festivais. Ferro Gaita e Miguel KR também ficaram de fora. E nas redes sociais, a frustração encontrou voz.
O fim de semana que prometia celebração
Nos dias 14 e 15 de agosto, São Nicolau preparava a 19.ª edição do Festival Praia d’Tedja, no Tarrafal. Simultaneamente, Santo Antão recebia a 36.ª edição do Festival de Curraletes, no Porto Novo. Ambos os eventos marcavam presença no calendário cultural do país com cartazes construídos ao longo de meses e anúncios que circulavam há semanas nas redes sociais. Esperava-se movimento, animação, regresso de emigrantes, divisas de turismo.
A realidade não foi tão simples.
Três nomes ausentes em São Nicolau
Ferro Gaita, Tabanka Djaz e Miguel KR foram anunciados como principais atrações do festival Praia d’Tedja. Nenhum deles actuou. O presidente da Câmara Municipal do Tarrafal, Neivo Araújo, confirmou que a autarquia tentou garantir a presença dos artistas tanto por via aérea como marítima, mas o esforço foi em vão. Os constrangimentos nos transportes, segundo o autarca, criaram um “bloqueio autêntico” que impediu a deslocação.
Neivo Araújo e o grito de igualdade
O presidente da câmara não se ficou pela lamentação. Em conferência de imprensa realizada de madrugada, Neivo Araújo deixou uma mensagem que ecoou nas redes sociais: “São Nicolau não pede favores. São Nicolau exige igualdade de tratamento.”
O autarca explicou que a tentativa foi modesta — pedia-se apenas um voo adicional, não dezenas. A ilha recebe maior número de visitantes e emigrantes precisamente no verão, altura em que as procuras explicitam a fragilidade de uma estrutura que não consegue adaptar-se aos picos de afluência. Neivo Araújo defendeu que o problema ultrapassa a realização do festival: é um problema estrutural que São Nicolau enfrenta há vários anos.
“Não queremos apenas descontos. Queremos ligações,” sublinhou.
Tabanka Djaz também ausente em Santo Antão
O cenário repetiu-se em Santo Antão. Tabanka Djaz estava previsto para encerrar a 36.ª edição do Festival de Curraletes. O grupo também não conseguiu chegar a Porto Novo. O resultado foi uma banda imprescindível do cartaz ausente de um dos festivais mais tradicionais do país.
Repercussão nas redes sociais e o debate público
Nas redes sociais, multiplicaram-se as publicações de cabo-verdianos que lamentaram a ausência dos artistas e voltaram a questionar a qualidade das ligações entre as ilhas. Muitos dos comentários recuperam uma crítica antiga: não é a primeira vez que eventos culturais, artistas e público ficam condicionados pelas limitações do transporte interilhas.
O que começou como um problema operacional transformou-se num debate sobre a própria capacidade de Cabo Verde hospedar eventos culturais nas ilhas periféricas. As críticas nas redes sociais expuseram uma questão que persiste: de que serve construir infraestruturas culturais se o transporte permanece um elo frágil?
O custo invisível da fragilidade
Os festivais aconteceram. Houve música, animação local, presença de público. Mas uma pergunta ficou em aberto: a quem serve este modelo de eventos se artistas e públicos não conseguem chegar?
Neivo Araújo tocou num ponto essencial: não se trata apenas de turismo ou de eventos pontuais. Trata-se de uma dificuldade maior, que afecta há anos a mobilidade entre as ilhas. Os festivais apenas voltaram a expor esta fragilidade que permanece estrutural.
Caboverde24.info
Fonte: Câmara Municipal do Tarrafal de São Nicolau; Câmara Municipal do Porto Novo; Inforpress







































