“O novo sistema digital de fronteiras está a gerar filas de várias horas nos aeroportos europeus, exigindo atenção redobrada dos passageiros cabo-verdianos”
Desde 12 de outubro de 2025, a União Europeia iniciou a implementação do Entry/Exit System (EES), um sistema automatizado que substitui o tradicional carimbo no passaporte por um registo digital com dados biométricos. Para os cabo-verdianos, que representam uma das comunidades mais conectadas à Europa através da imigração e turismo, esta mudança tem consequências práticas significativas que exigem atenção redobrada no planeamento de viagens.
O caos está confirmado: aeroportos europeus em crise
A transição para o novo sistema tem gerado congestionamentos severos nos principais pontos de entrada do espaço Schengen. Ontem, 18 de dezembro, a ACI Europe (Airport Council International), que representa os aeroportos europeus, enviou uma carta urgente à Comissão Europeia descrevendo a situação como “mayhem and chaos” – caos e confusão para viajantes e aeroportos.
Os dados são alarmantes: os tempos de processamento nas fronteiras aumentaram até 70% em muitos aeroportos, com picos de espera que atingem três horas. Aeroportos em Portugal, França, Espanha, Itália, Alemanha, Grécia e Países Baixos – destinos prioritários para viajantes cabo-verdianos – reportam problemas diários que se agravam durante períodos de maior movimento.
O problema não está no conceito do sistema, mas na sua implementação. As autoridades fronteiriças europeias enfrentam dificuldades técnicas e operacionais múltiplas: equipamentos de leitura biométrica insuficientes, falhas recorrentes nos sistemas informáticos, kiosques de auto-atendimento parcialmente implementados ou completamente indisponíveis, e falta de pessoal treinado para gerir o novo processo.
Uma implementação progressiva que explica a confusão
Um aspeto crucial que muitos viajantes desconhecem: o EES não está totalmente operacional.
O sistema está numa fase de implementação progressiva de seis meses, com funcionamento pleno previsto apenas para 10 de abril de 2026. Isto significa que nem todos os postos de controlo fronteiriço estão a processar dados biométricos simultaneamente, e os carimbos tradicionais ainda coexistem com o novo sistema digital.
Esta implementação faseada explica em parte o caos atual: alguns viajantes são processados pelo sistema antigo, outros pelo novo, outros por uma combinação de ambos. Os agentes fronteiriços trabalham com procedimentos mistos, o que aumenta a confusão e os tempos de espera. Durante os primeiros dois meses de funcionamento, os bloqueios têm sido particularmente severos durante manhãs e fins de semana.
Como funciona o EES e o que muda para cabo-verdianos
O Entry/Exit System regista digitalmente todos os viajantes de países terceiros (não pertencentes à UE) que entram no espaço Schengen. Isto inclui cidadãos cabo-verdianos, independentemente de possuírem visto ou de entrarem ao abrigo da isenção de visto para estadias curtas.
No primeiro controlo após a implementação do EES em cada posto fronteiriço, cada viajante precisa fornecer impressões digitais dos quatro dedos de cada mão e uma fotografia facial. O processo inclui ainda a verificação do passaporte, resposta a questões sobre o propósito da viagem e confirmação de bilhete de regresso. Estes dados ficam armazenados no sistema por três anos. Nas viagens subsequentes dentro deste período, o processo deve ser mais rápido – em teoria.
Para a comunidade cabo-verdiana na diáspora, que viaja frequentemente entre Cabo Verde e a Europa para visitar familiares, esta mudança significa tempos de espera substancialmente maiores, especialmente para quem viaja pela primeira vez após a implementação do sistema no aeroporto em questão ou cujos dados biométricos já expiraram.
Situação crítica nos principais destinos cabo-verdianos
Nota especial sobre Lisboa: O aeroporto Humberto Delgado é particularmente problemático para viajantes cabo-verdianos. A polícia de fronteiras reportou dias “críticos” com esperas superiores a 90 minutos tanto nas chegadas como nas partidas. O aeroporto enfrenta um desencontro estrutural entre capacidade (22 milhões de passageiros/ano) e realidade (mais de 35 milhões em 2024), deixando margem mínima quando sistemas novos como o EES são introduzidos.
Impactos diretos para viajantes cabo-verdianos
As consequências práticas são múltiplas e sérias. Passageiros que programaram conexões apertadas em hubs europeus como Lisboa, Paris ou Amesterdão correm risco elevado de perder voos de correspondência. Famílias com crianças pequenas enfrentam esperas prolongadas em ambientes desconfortáveis, com casos reportados de crianças exaustas após horas em filas. Viajantes de negócios podem chegar atrasados a compromissos importantes.
O problema agrava-se para cabo-verdianos que chegam através de companhias aéreas low-cost ou em voos charter, frequentemente concentrados em horários de pico quando os controlos já estão sobrecarregados. Aeroportos secundários, embora menos congestionados, nem sempre dispõem de infraestrutura adequada para processar o volume de dados biométricos exigido.
Há também uma dimensão económica significativa: viajantes que perdem conexões podem enfrentar custos adicionais com realojamento, novas reservas e dias de trabalho perdidos. Para emigrantes que regressam a Cabo Verde com férias contadas, perder horas em filas de aeroporto significa menos tempo com a família – um custo emocional que não aparece em estatísticas mas afeta profundamente a experiência migratória.
Recomendações práticas para evitar transtornos
Face à situação atual, viajantes cabo-verdianos devem adotar precauções específicas e rigorosas:
Tempo de conexão: Chegue ao aeroporto europeu com margem mínima de quatro horas antes de voos de conexão – o dobro ou triplo do habitualmente recomendado. Se possível, evite conexões com menos de três horas de intervalo até que o sistema estabilize em abril de 2026.
Esta não é uma recomendação exagerada: especialistas em viagens e a própria indústria aeroportuária confirmam que quatro horas é atualmente o tempo seguro.
Documentação organizada: Prepare com antecedência passaporte válido (com pelo menos 6 meses de validade), comprovativo de alojamento (reserva de hotel ou carta-convite), bilhete de regresso, e documentos que justifiquem o propósito da viagem (carta do empregador, convite para eventos, etc.). Embora estes documentos já fossem necessários, a verificação tornou-se significativamente mais demorada e minuciosa com o novo sistema.
Viagens com crianças: Prepare-se para processos mais longos. Menores de 12 anos precisam apenas de fotografia facial (sem impressões digitais), mas o registo de famílias inteiras consome mais tempo nos postos de controlo. Leve consigo água, snacks e entretenimento para os mais novos. Considere viajar fora de horários de pico sempre que possível.
Escolha estratégica de rotas: Opte por voos diretos sempre que possível, mesmo que ligeiramente mais caros, para minimizar o risco de perder conexões. Se a conexão for inevitável, escolha aeroportos com melhor gestão ou horários fora dos períodos críticos (evite manhãs e inícios de tarde). Para Lisboa especificamente, voos entre 12h e 14h ou após as 20h tendem a ter filas menores.
Registo antecipado: Alguns aeroportos oferecem kiosques de auto-registo ou aplicações móveis (como “Travel to Europe”) que permitem pré-registar dados biométricos. Verifique se o seu aeroporto de chegada oferece esta opção e use-a para economizar tempo.
O que as autoridades dizem e perspetivas futuras
A Comissão Europeia reconhece as dificuldades iniciais. Olivier Onidi, Diretor-Geral Adjunto da ACI Europe, declarou ontem: “Compreendemos e apoiamos a importância do EES e mantemo-nos totalmente comprometidos com a sua implementação. Mas o EES não pode significar caos para viajantes e confusão nos nossos aeroportos.”
A ACI Europe exigiu na sua carta de ontem que, se os problemas operacionais não forem resolvidos e o sistema não estabilizar até início de janeiro de 2026, será necessária “ação rápida da Comissão Europeia e dos Estados-membros Schengen para permitir flexibilidade adicional na implementação”.
Caboverde24.info
Fonte: imprensa internacional








































Uma resposta
Kakapitxa para complicar, Deus nos acuda