Boa Vista tem 21% das camas turísticas do país — mas falta casa para quem trabalha na ilha

​Em 30 segundos

​🏨 A Boa Vista concentrava, em 2024, cerca de 21% das camas dos estabelecimentos hoteleiros de Cabo Verde.

​👷 No mesmo ano, os estabelecimentos turísticos tinham 2.568 trabalhadores remunerados, equivalentes a 21,8% do total nacional dessa categoria.

​📈 No segundo trimestre de 2026, a ilha respondeu por 29,5% das dormidas hoteleiras do país.

​🏠 Existem novas habitações em construção ou em projeto, mas não está disponível uma estimativa pública recente do défice habitacional da Boa Vista.

​Turismo cresce e aumenta a necessidade de trabalhadores

​A Boa Vista consolidou-se como o segundo maior polo turístico de Cabo Verde, atrás apenas do Sal.

​Em 2024, concentrava cerca de 21% das camas disponíveis nos estabelecimentos hoteleiros do país. Em 2025 recebeu 24,4% dos hóspedes e, no segundo trimestre de 2026, respondeu por 29,5% das dormidas registadas a nível nacional.

​A dimensão do setor reflete-se também no emprego.

​Segundo o Inventário Anual de Estabelecimentos Hoteleiros do INE, os estabelecimentos da Boa Vista tinham, em 2024, 2.568 trabalhadores remunerados, correspondentes a 21,8% do total nacional. A maioria, 1.431, trabalhava com contrato a termo e 1.133 tinham vínculo permanente. Outros quatro estavam registados sem contrato.

​Além da hotelaria, a expansão turística gera procura de mão-de-obra na construção, transportes, restauração, comércio e outros serviços.

​Uma parte desses trabalhadores chega de outras ilhas ou do estrangeiro. É nesse ponto que o crescimento económico encontra uma dificuldade cada vez mais visível: a habitação.

​Um T1 pode consumir quase todo o salário

​Uma reportagem divulgada pela Inforpress recolheu testemunhos de residentes, professores e trabalhadores que descrevem um mercado de arrendamento com pouca oferta.

​Os valores referidos situam um T0 entre 18 e 20 mil escudos mensais e um T1 entre 22 e 25 mil escudos. Quartos individuais raramente descem dos 15 mil escudos.

​Não se trata de uma estatística oficial das rendas médias, mas de preços relatados por pessoas que procuram ou utilizam atualmente o mercado.

​O testemunho de Sadju Masani, pedreiro e pai de dois filhos, permite colocar esses números em perspetiva. Afirma receber entre 25 e 28 mil escudos mensais e dividir com outras cinco pessoas uma casa de dois quartos, pela qual paga 15 mil escudos.

​Face ao rendimento indicado, uma renda entre 22 e 25 mil escudos representaria entre cerca de 80% e a totalidade do salário mensal.

​A questão deixa, portanto, de ser apenas a disponibilidade de casas. Para alguns trabalhadores, é também a possibilidade financeira de suportar uma renda individual.​

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Professores mantêm casas durante as férias

​A pressão habitacional afeta igualmente profissionais deslocados para a ilha.

​Professores ouvidos pela Inforpress relataram dificuldades para encontrar alojamento, recorrendo por vezes temporariamente a conhecidos ou à partilha de casa.

​Alguns continuam a pagar a renda durante as férias escolares, mesmo quando estão fora da Boa Vista, por receio de não encontrarem alojamento quando regressarem.

​A situação ganha relevância numa ilha que depende de profissionais vindos de outros pontos do país para assegurar serviços como a educação.

​Arrendamento turístico acrescenta pressão, mas não explica tudo

​A passagem de habitações do arrendamento residencial para estadias de curta duração é outro fenómeno referido na reportagem.

​Patrícia del Peso, cidadã espanhola residente na Boa Vista há mais de um ano, contou que o proprietário lhe pediu a casa para a converter em alojamento turístico.

​O testemunho confirma que este tipo de mudança ocorre, mas os dados disponíveis não permitem saber quantas habitações passaram efetivamente do mercado de longa duração para o turístico nem qual o peso desse fenómeno na escassez atual.

​A pressão habitacional pode resultar da combinação de vários fatores: crescimento da população, chegada de trabalhadores, ritmo da construção residencial, rendimentos familiares e utilização turística de parte do parque habitacional.

​Por isso, não é possível atribuir a situação exclusivamente ao crescimento do turismo.

​Autarquia reconhece falta de casas disponíveis

​O problema já tinha sido reconhecido publicamente antes da reportagem desta semana.

​Em agosto, o presidente da Câmara Municipal da Boa Vista, Cláudio Mendonça, apontou a habitação como um dos principais desafios da ilha e referiu a reduzida disponibilidade de imóveis para arrendamento.

​Ao abordar a relação entre salários e rendas, deu um exemplo concreto: uma pessoa que receba 50 mil escudos dificilmente poderá suportar uma casa de 40 mil.

​Na mesma ocasião, a autarquia indicou ter em curso projetos para a construção de 21 apartamentos.

​Cinquenta habitações sociais estão em construção no Rabil

​Há também investimentos do Estado em execução.

​Em fevereiro, o Governo confirmou a construção de 50 habitações sociais T2 no Rabil, num investimento de 160 mil contos.

​Estas unidades destinam-se a programas de habitação social e não constituem, por isso, uma resposta direta a todo o mercado privado de arrendamento.

​Da mesma forma, os 21 apartamentos municipais podem reforçar a oferta, mas ainda não permitem avaliar se a dimensão das respostas acompanha a procura existente.

​Falta medir o défice habitacional

​Os indicadores turísticos da Boa Vista são conhecidos com detalhe: capacidade hoteleira, número de hóspedes, dormidas e emprego.

​Já para a habitação não está disponível, nas fontes públicas recentes consultadas, uma estimativa atualizada do número de casas necessárias para responder à população residente e aos trabalhadores que continuam a chegar à ilha.

​Esse dado permitiria avaliar melhor se os investimentos em curso correspondem à dimensão da procura e até que ponto a escassez habitacional poderá condicionar a capacidade da Boa Vista para atrair e fixar trabalhadores.

​A questão já ultrapassa, assim, o preço das rendas.

​Numa economia que continua a criar procura de mão-de-obra na hotelaria, construção, educação e serviços, a disponibilidade de habitação passa a ser também uma condição para sustentar o próprio crescimento.

​Caboverde24.info

​Fonte: ​Instituto Nacional de Estatística; Inforpress; Governo de Cabo Verde

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